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Posts de 'Espaço do Escritor'

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SOMOS TODAS PSICO-PATHAS - crônica de Juliana Simão
22/07/2008 · Ofício das Palavras

Somos todas psico-pathas

Esqueçam as campanhas para vender carros. Esqueçam o medo do eixo do terror. Esqueçam as Chinatowns espalhadas por qualquer grande metrópole do mundo. Não há nada mais globalizado do que este papo de que falta homem, de que existem muito mais mulheres que homens no mundo, de que as mulheres estão sozinhas, de que a população masculina está casada ou enviadada (dizem por aí que 10% deles é bi e 15% é gay), de que as mulheres estão piradas e os homens, coitados, perdidos. Metrossexuais, homossexuais, bissexuais, heterossexuais, assexuais..., o fato é que tem muita mulher sozinha. Estatísticas de bar à parte, acho que precisamos encarar a verdade, nua, sem bojo de sutiã e bem longe dos saltos altos: toda mulher que eu conheço é psico-pata. Psico porque é louca – mulher e loucura parecem ter sido geradas juntas e separadas no parto. Pata porque é humana, imbecil, idiota, estúpida, sem controle, desmedida, insana, surtada, panicada, apaixonada... e besta.
Somos patas, na mais perfeita acepção da palavra. Ficamos embasbacadas com vocês, rapazes, que não precisam ser belos, nem magros, nem esbeltos. Podem ter celulite, podem sofrer de falta de cabelo na testa, excesso de pelos no nariz. Podem ser viciados em atari ou em jogos de futebol regados a sofá e cerveja quentes. Basta serem homens para nos tirarem do sério, nos meterem nessa condição tão nossa, nos deixaram totalmente psico-patas.
Eu sou uma espécime. E quem não for que queime o sutiã. Eu olho as últimas chamadas dos seus celulares quando vocês vão ao banheiro. Eu tento descobrir as senhas da Internet quando vocês esquecem a janela do computador aberta (sorte de vocês que uma das características atávicas das psico-patas seja esta incapacidade com tecnologia). Eu sigo vocês com óculos escuros nas ruas da cidade, em busca de uma ou qualquer prova que os incrimine. E eu nunca acredito quando minha melhor amiga mostra fotos suas num lugar estranho com uma mulher gostosa em dia e hora de reunião.
Ta bom, você quer que eu seja mais específica, mais concreta, mais masculina? Afinal, casos como estes já foram jogados na nossa cara durante toda a história da humanidade. Joana d’Arc era mesmo uma bruxa? Vamos aos casos. Minha amiga S. acaba de contar. Está grávida de cinco meses e engatou um romance patológico com seu ginecologista. Está apaixonada pelo marido, pelo bebê e pelo médico que fez tudo isso possível. O marido sempre fica esperando na sala de espera. A outra T. encontrou um número estranho no celular do marido. Anotou num papelzinho e, voilá, no dia seguinte, ligou de um orelhão para a amante do fofo. Como não queria fazer feio, se fez passar por uma atendente do Carrefour, fez a ficha da pobre coitada e inventou uma promoção – ela acabara de ganhar uma cesta básica naquele mês. Com o nome, idade, profissão e telefone na mão, obrigou o marido a fazer a tal boa ação. Patas, as duas. A amante que caiu no conto da promoção e a mulher que ainda ficou com ele e acaba de ter uma filhinha. A outra A. não sabe o que fazer desde que seu “amigo” B. avisou que acha que gosta um pouquinho dela. O que é um pouquinho?.
Todas juramos que não suportamos mais esta situação. Vamos mudar, vamos ser mais masculinas, vamos trepar por prazer, vamos parar de amar, vamos parar de sofrer. Nã na ni na não. A gente não só suporta. Gosta. Eis mais uma característica comum a todas nós. O que nos faz psico-patas é sofrer e gostar de continuar sofrendo. Na nossa patice, todas as mulheres nos encontramos.

Ju Simão


UM SEGURANÇA PRA CHAMAR DE SEU - crônica de Deborah Bresser
22/07/2008 · Ofício das Palavras

Um segurança para chamar de seu

O cara é um armário de mogno, a argola prata na orelha esquerda destoa um bocado da figura, quebra o gelo. Os cabelos em tranças formam ruas estreias sobre a cabeça e confirmam a vaidade. Há manhãs em que o bom dia dele vem como um trovão, noutros sai instável, dócil, uma voz para cada sentimento. Na noite, ele tem cara de quem curte uma balada, ninguém desconfia que passa as horas recebendo mães que lhe entregam, cheias de confiança, seus bebês, em cadeirinhas que ele segura com dois dedos, tão forte o cabra. Dos olhos ternos, cravados naquela cara de bravo, emana um cuidado de cão de guarda. Pega as crianças, que ficam ainda mais miúdas perto de seu colo, e as dá para a moça lá de dentro, do berçario. Quando eu passo, com o dia ainda noite, abaixo a cabeça em uma leve reverência, que ele retribiu sempre sorrindo um sorriso de dentes grandes e brancos, tinindo no contraste com o tom de sua pele. Ele é uma das vidas que se destinam a proteger vidas alheias, com as quais cruzo no caminho.
Começo a série de bons-dias antes mesmo de sair do prédio. Até o portão são dois, um na guarita, outro fora. Repito a cena a cada duzentos metros, se tanto. E assim vou, pouco mais de um quilômetro de distância, passando por um, dois, três, quatro, cinco seguranças particulares. Eles não portam armas, apenas aquele sorriso delicado, matinal, dado para quem se preste a olhar para eles com o respeito de enxergar no esforço de suas madrugadas passadas no frio a dignidade de um emprego que não deveria existir. Segurança é coisa pública, cabe ao Estado o dever de zelar pelo ir e vir de seus cidadãos. Homens desarmados e sonolentos, com seus sobretudos surrados e suas televisões cheias de chiados, em guaritas mal ajambradas, não poderiam tomar para si essa responsabilidade. Recebem salários dos moradores ou de comerciantes para proteger o vulnerável. São residências boas, de gente rica, padarias, lojas de tecido, de calçados, sorveterias e até o berçário. Na frente de cada uma delas, uma certeza. Se algum bandido realmente resolver desafiar essa falsa autoridade policial, essas muralhas de pó, a casa vai cair.
Depois do grandão da escolinha infantil, há o rapaz sorridente da loja de tecidos, misto de guarda e manobrista. Sempre de terno, sempre terno. Seu bom dia é todo entusiasmo. Mais adiante, surge o senhorzinho, deve ser o mais velho deles, não duvido. Quepe na cabeça, uniforme, ele jura que é polícia, mas não passa de um aposentado ganhando algum troco. Tem um bom dia cheio de vida, posso ouvi-lo do outro lado da rua. Ele cumprimenta a todos, de onde estiver. É um sem-guarita. Deve passar a noite toda zanzando pelo quarteirão. Na seqüência, encontro a troca da guarda. Dependendo do horário em que passo, está um ou outro. O da madrugada tem a cara fechada, sisudo, tenso. O do turno da manhã é um homem família. Acaba de ser pai de novo, estava com seu bebê no colo outro dia. Esse tem televisão, que pega mal, mas já é alguma coisa. O filho mais velho também vem dar expediente antes de ir para a escolinha, a mãe é um loira bonita, deve trabalhar na casa em frente à guarita, entra e sai dali com intimidade. Na última rua antes de cruzar a avenida, está o mais profissional. O orgulho de zelar pelo patrimônio dos homens daquela rua está na face. Não tem cabelos, só coragem. Andou de braço quebrado um tempo atrás, não deixou de trabalhar. Forte, altivo, está sempre a postos. Já chegando perto do meu destino, cruzo com o último deles, o da padaria. Muito elegante, exibe agora uma aliança na mão esquerda, esteve sumido, acho que estava em lua de mel. O terno sobra em sua silhueta magra, parece herdado de algum bacana, não faz diferença. Bacana é ele, com sua gentileza estampada em cada bom dia que oferece, sem pedir nada em troca. Quer saber? Ando sem medo. Não estão lá para me proteger, mas me sinto muito mais segura em saber que há vidas no caminho. Bom dia!
Deborah Bresser


Meu queijo tem cedilha - crônica de CLEIDE GUEDES
23/04/2008 · Ofício das Palavras

Ah! May Parreira. Desta vez você me passou uma tarefa difícil: escrever uma crônica sobre a forma correta de escrever muzzarella em português. Complicado, mas um desafio.
Fui procurar as origens desse queijo e já no nascedouro achei discrepâncias. Uns dizem que a muçarela nasceu na comuna de Averso, na Itália. Outros, que nasceu em Salerno. Há ainda aqueles que dizem que esse queijo é originário de Castela. Outro fato a ser considerado: se for um queijo, palavra masculina, porque pedimos por uma muçarela, palavra feminina? Outras fontes informam que ela é feita de leite de búfala, e que com a popularidade obtida, faz-se com leite de vaca na maior parte dos países. E que sua grafia pode ser muzzarella, mozzarella, muzarela, muzarella, mozarella e mozarela. E agora, mais essa: muçarela.
No que quase todos concordam é como ela surgiu. Conta a lenda que em uma fábrica de queijos perto de Nápoles, um coalho caiu em um caldeirão de água quente. Daí para espalhar esse queijo derretido em um pão foi fácil. Mais fácil ainda sobre um pão redondo. E se contam histórias e mais histórias. Até para reivindicar quem inventou a pizza. Convenhamos, falar de mozzarella ou muçarela e não falar de pizza...
Os sírios dizem que inventaram o pão redondo. Ou foram os libaneses? Ou povos mais remotos, na Mesopotâmia? Os italianos colocaram a muçarela na massa redonda. E os imigrantes italianos, quando chegaram a Nova York acrescentaram o tomate. E hoje existe pizza de tudo quanto é jeito. Com frutas, sem frutas, com vegetais, com diversos tipos de carne, com massa fina, massa grossa, mas impossível uma pizza sem muçarela.
A linguagem é uma força viva. Os povos de uma determinada região assimilam expressões e palavras e passam a usá-las como suas. Não importa de que procedência , uma vez feita a adaptação, ficam incorporadas no vocabulário e pronto. Já pensou se alguém, ao invés de usar o galicismo abat-jour entrasse em sua sala e dissesse: Está escuro. Pode acender a pantalha ? E pior. Imagine se você se dispusesse a mostrar algo para um amigo em seu computador e ele viesse com essa: Mexa o rato mais para cima? Se fosse comigo eu cairia da cadeira. Odeio ratos. Mas já me acostumei com o mouse. Pode ser que venha alguma lei que nos obrigue a escrever mause. Ou mauze.
Certa vez, em um programa do Jô Soares, Antonio Houaiss disse que algumas tribos conhecem no máximo 1.000 palavras e um europeu culto, no mínimo 65.000 palavras. Então é melhor aprender mais palavras do que modificar as que já sabemos. O que importa, é que aquilo que se fala é aquilo que se quer dizer. Se eu pedir uma pizza, espero que ela seja de muzzarela ou muçarela, não importa. A pizza que me desagrada é a solução ridícula para a corrupção dos governos.
Várias palavras foram modificadas com o tempo. Nunca por decreto. As imposições tendem a caducar. Nas sociedades intelectualmente evoluídas há abertura e liberdade e as pessoas escrevem tal qual na forma original. Uma palavra inglesa pode ser adotada na Dinamarca, por exemplo, e cabe ao povo usá-la comumente ou encontrar uma substituta dinamarquesa à altura. Na Europa em especial, isso é fácil pela proximidade geográfica dos países.
Na obra de Berger and Luckman, “A Construção Social da Realidade”, ele afirma que: Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano é transformado. Nesta dialética, o homem produz a realidade e, portanto, ele se produz.
A meu ver, ele está certo, se estivermos tratando de uma sociedade em evolução. Na revolução, quase tudo é imposto. Se me fosse dado o direito de opinar, eu diria que as palavras são geradas de acordo com as necessidades. Imagine se em 1800 alguém falaria televisão, satélite orbital, Internet, e tantas outras. Elas surgiram porque houve precisão delas. Da mesma forma, o contato com outros povos e outras línguas, fizeram incorporar à nossa, algumas palavras que são pronunciadas por qualquer criança que saiba falar. Um filme do You Tube mostra a filha de um músico brasileiro, menina de um ano e meio, mostrando ao pai no celular, como se faz o download. E com a pronúncia apropriada.
E tem mais, quando uma sociedade toma contato com outra, as palavras podem trocar de endereço. E isso não é pernóstico, nem falta de nacionalismo. Acho que aqueles que querem mudar vocabulários por imposição jamais falaram com caipiras, ou souberam de seus ditados.
Um deles cabe bem à introdução da muçarela. Deixe que se fale, se escreva e se pronuncie muzzarella, ou mozzarela. Todo o mundo sabe que ela é italiana mesmo. Como diz o dito popular, Quem faz filho na mulher dos outros perde o feitio.
Cleide Guedes
São Paulo, 12 de Abril de 2008
IN LUX


Crônica Musical
07/04/2008 · Ofício das Palavras

Crônica Musical

Voltei a fazer exercícios na academia. É um ambiente agradável, a moçada lá é animada e depois de quarenta e cinco minutos, qualquer um se sente revigorado, pronto para enfrentar o dia.
Antes do meu tombo na Alameda Lorena, gravei uma série de músicas latinas e alguns sambas brasileiros e os levei para que servissem de fundo para a ginástica. No meu retorno, a professora havia mudado e as músicas também.
Na primeira semana, tudo bem. Temos que dançar conforme a música. Depois, comecei a me sentir incomodada com aquele tcha catum, tcha catum, que serve para os jovens, mas que para mim é um horror.
Ninguém reclama, então devo eu ser a chata, a desagradável, a que não compreende as “baladas”. E eu agüentando. Até que alguém fez um comentário e mudaram a música para uma espécie de samba, falando da barata da vizinha, uma letra maliciosa, de gosto pra lá de duvidoso.
Como já estava no final da minha série, perguntei para a coordenadora: Você estudou música? Ela disse: Não, por quê?
Bem, respondi eu, porque a música nos leva a estados de espírito. Na China antiga, o imperador visitava os cantões para saber a quantas andava o povo. Reuniam-se nas praças, tocavam e cantavam as músicas populares. Pelo que ouvia, o imperador sabia se havia progresso ou não. Porque a música traduz o espírito e a alma de um povo.
Nas religiões afro brasileiras os atabaques são tocados, com uma precisão cadenciada, para que as forças telúricas se manifestem.
Essas músicas que os jovens ouvem nas ditas baladas, têm um tom tão agressivo, que não me admira que estejamos vendo e ouvindo falar sobre crimes bárbaros, pois rap, hip hop e outros que tais, além do som barulhento, evocam letras pesadas, que incitam à raiva, ao ódio e a soltar a besta que cada um tem dentro de si.
Há uma lâmina de Tarot, a de número 18, que é chamada de LUA. Em seu simbolismo, há um rio que separa duas figuras: um cão domesticado e um lobo. No alto da lâmina, encontra-se uma meia lua chorando. Pois bem.
Porque ela chora? Penso que é por que exercer o domínio sobre nós mesmos, resistir aos instintos, é algo penoso, requer trabalho, atenção constante, vigilância perene. Se não, o lobo predominará e nos levará a praticar atos condenáveis. A Lua chora, porque tem pena dos condenados. E também chora porque tem pena dos que resistem ao mal com tanto sacrifício, que é realmente doloroso. Isso sem contar com a opinião daqueles que pensam que quem é bom é bobo.
A Lua também representa a memória, o passado e o inconsciente coletivo. Por isso, verte lágrimas. Porque o homem dominou a tecnologia, criou coisas maravilhosas, inventou sistemas, mas a maioria não conseguiu dominar o lobo dentro de si.
A música eleva a alma. Michael Bublé e antes dele, Rod Stewart descobriram que regravar os sucessos americanos dos anos 40, 50 e 60, davam o maior ibope, porque são músicas lindas, suaves, românticas, com letras inspiradas e inspiradoras, e estavam certos. Um ficou conhecido mundialmente e o outro voltou a fazer sucesso.
Na época da bossa nova e até um pouco depois, surgiram talentos no Brasil, que colocaram o país no mapa mundial musical. Porque música não tem fronteira. O saxofonista japonês Watanabe lançou uma coletânea de músicas com Elis Regina, ela sem saber a língua dele e ele sem saber o português. E que beleza de gravação!
Tom Jobim também colocou o país nos píncaros através de sua arte. Ivan Lins faz tanto sucesso, que cantores de diversas partes do mundo entoam suas canções e os maiores arranjadores disputam seu trabalho. E tantos outros, que sendo regionais se tornam universais.
Essa música de bate estaca que caiu no gosto popular, não me anima. Ao contrário, me dá uma sensação de vazio cultural.
E se alguém achar que estou exagerando, vamos só recordar o que está sendo lançado no Brasil para que o povo se divirta: a eguinha do pocotó, a dança da garrafa, a barata da vizinha, e outras menos votadas, mas igualmente tolas. Sem esquecer das obscenidades da música do Creu. Se é que pode se chamar a isso de música.
E lá de fora vem a estatística: oitenta por cento das mulheres que trabalham como prostitutas na Europa, são brasileiras. O prefeito de Nova York teve que renunciar por causa de uma prostituta brasileira. A música que ela está lançando, está fazendo sucesso na Internet.
Dá para entender uma coisa dessas? E agora, José?
Acho que estou ficando velha.
São Paulo, 19 de Março, 2008.
Dia de São José.

Em tempo: Meus amigos que chegaram no mesmo avião em que veio a cafetina deportada, ficaram indignados, pois tiveram que esperar “madame” desembarcar, até chegar um carro da Infraero para levá-la a um destino desconhecido. Não queria enfrentar a imprensa.
Depois, ouço estarrecida em um dos jornais da TV, que ela declarou pouca coisa, pois o que espera, são as propostas de revistas para que possa dar uma entrevista legal. Quem der mais, leva.
E na Internet circula uma espécie de Boletim, pedindo para que todos repassem a mensagem de boicote às empresas espanholas: tire sua conta do Santander, venda suas ações da Telefônica, saia da Vivo para outras operadoras, não use azeite espanhol e outros quesitos mais.
Deve ser coisa de gente que está querendo se vingar do Rei Juan, pois mandou Chavez calar a boca. Esquecem que a Espanha está querendo impedir que mais prostitutas e homossexuais se fixem lá. Por falar nisso, já se questiona sobre nosso maior produto de exportação: o terceiro sexo.
Pode ter havido exagero nas deportações? Com certeza. Dê o poder na mão de um ignorante e veja o que acontece.
Vêm à minha cabeça, volta e meia a alegoria da Caverna de Sócrates. O poder são deveria estar na mãos dos sábios.
Será que um dia o Brasil vai ter jeito?
São Paulo, domingo de Páscoa.

In Lux


Crônica de Natal - de Cleide Guedes
21/12/2007 · Ofício das Palavras

Todos nós temos alguma festa de Natal inesquecível. As minhas festas natalinas foram de encantamento. A primeira que me vem à mente se passou em Ribeirão Preto. Nossa casa era na tranqüila Rua Bernardino de Campos. Tínhamos, meu irmão e eu, vários amiguinhos que moravam no mesmo quarteirão, e formávamos uma turma homogênea, porque as idades não variavam mais do que dois anos para cima ou para baixo. De alguns eu me lembro bem. De outros, tantos acontecimentos e lá se vão já tantos anos, que ficaram esquecidos num escaninho qualquer da memória.
Era uma turma grande, e a estes se somavam os meninos e meninas dos quarteirões vizinhos. Mesmo para uma cidade do interior, é difícil encontrar num mesmo quarteirão, à direita e à esquerda, um grupo de vinte crianças da mesma faixa de idade. Nós nos reuníamos todas as tardes, lá pelas cinco horas e ficávamos brincando até a hora do jantar. Todos tinham bicicletas, e meus pais não nos tinham dado uma, pois o ônibus da Viação Cometa resolveu entrar na cidade, pela nossa rua.
Vinham numa velocidade incrível. Minha mãe, que havia sofrido um atropelamento na Rua Sete de Abril em S. Paulo, ficava apreensiva com a irresponsabilidade de motoristas, que já não respeitavam os transeuntes. Acho que meus pais se compadeceram da nossa frustração e no Natal dos meus 11 anos fizeram aquela surpresa. As nossas bicicletas eram bem mais bonitas do que a de nossos amigos. A minha era azul. Com redinha para não prender a saia (isto já não existe mais) um luxo só. Lembro até hoje da sensação de cabelos ao vento, da liberdade de andar no quarteirão inteiro, exibindo o meu presente desde as sete horas da manhã. Esse foi um Senhor Natal!
Além desse, muitos outros povoam as minhas lembranças. Perus, presuntos, capelettis, castanhas, nozes, e as intermináveis horas que minha mãe e minha avó ficavam no forno fazendo pannetones ( não existia Viscontti nem Bauduco ) vinhos, que meu avô escolhia com carinho, um para cada prato; e das uvas. Ah! as uvas!
Quando íamos passar o Natal em Bauru, meus avós moravam em uma casa com um enorme espaço para jardim na frente. Para meu avô, europeu de Budapeste, não fazia sentido aquele espaço sem nenhuma parreira. Plantou um enorme caramanchão com várias parreiras se entrelaçando umas às outras. Em dezembro elas ficavam carregadinhas daquelas uvas maravilhosas, brancas e rubis, cujo sabor tinha o gosto do amor com o qual meu avô as cultivava. E eram deliciosas!
Eu me lembro do orgulho que vovô sentia quando elogiavam não só seu sabor, como também a beleza do espetáculo de estar embaixo do caramanchão e não se enxergar nada senão uvas.
Acho que todos pensam que seu avô era bonito. Nunca ouvi ninguém falar que teve um avô feio. Mas o meu era lindo e colorido. Seus cabelos eram branquinhos.
Os olhos azuis feito contas de cristal. As faces sempre rosadas e o sorriso alvo de dentes perfeitos eram sua marca registrada. Convivi bastante com ele e nunca me lembro de tê-lo visto triste. Todos os seus filhos diziam que minha mãe era como ele. Foram duas estrelas que com seus brilhos deram Luz à nossas vidas. Ah! que saudade daqueles tempos fantásticos onde tudo o que era importante, era ficar acordado para flagrar Papai Noel.
E a Missa do Galo? Nem sei mais se as famílias se preocupam com isso nas vésperas do Natal. A minha tinha um encontro na Igreja todos os dias 24 de Dezembro à meia Noite. Íamos todos, minha avó fazia questão absoluta da presença de filhos, netos, genros e noras. As crianças acordavam estremunhadas, tinham que se enfarpelar para a missa, a que assistíamos compungidos, aquela cerimônia sagrada, afinal, Jesus nasceu. Depois, era servida uma Ceia, onde todos nos fartávamos, aquilo era Pantagruel puro.
Minha avó já deixava a mesa posta, e aí, quando todos voltavam da Missa, minha mãe e minhas tias iam acendendo os fogões e os fornos para que tudo estivesse quentinho. Vovó costumava dizer que duas coisas animam a gente: comida quentinha e banho espertinho. Banho já havíamos tomado antes de ir rezar, mas a Ceia quente reanimava-nos de qualquer eventual cansaço. Lá pelas três, três e meia da manhã, íamos dormir, sonhando com Papai Noel. Será que ele ia trazer o que havíamos pedido? Será que além do pedido vai haver mais alguma surpresa? Era uma expectativa só! Quantas lembranças...
Depois, já adulta, passei eu mesma a proporcionar para minha família, os Natais da minha infância. Ceias memoráveis, pratos feitos com o maior carinho e Árvores de Natal abarrotadas de presentes, que quem viu não se esquece jamais. E aí... minha filha foi morar nos Estados Unidos, meu irmão no Rio Grande do Sul.
Minha mãe foi morar no céu, onde meus avós e muitos dos meus tios já estavam. Anos depois meu pai os seguiu.
Agora, os meus Natais são havaianos. São Melekalikimaka, onde tento proporcionar à minha neta, as mesmas alegrias.

IN LUX
Cleide Guedes


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