A amiga genial – Elena Ferrante

R$ 0,00

Ao finalizar “a compra” o link para download estará disponível.
Um download por “compra”
.

Fora de estoque

REF: A amiga genial Categoria

Descrição

Neste primeiro volume da série, Elena Greco revisita suas lembranças da infância e da adolescência passadas ao lado de Lila. Ao fazê-lo, contraria abertamente o desejo da amiga de dissipar-se. Não parece fazer diferença para Elena. Seu interesse imediato é sublinhar que Lila existiu e que a influenciou. Que é e foi importante, e não será esquecida.

Desde pequena, demonstrando uma coragem incomum, Lila “rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los”. No cenário descrito por Ferrante, o equilíbrio era precário — se quebrá-lo era fácil, tampouco era uma ação sem maiores consequências. As garotas intuíam, com razão, uma tensão permanente naquele bairro napolitano do pós-guerra. Havia “sentimentos represados sempre a ponto de explodir”, segundo Elena — daí a importância, e também a imprudência, da audácia de Lila. “Vivíamos em um mundo em que crianças e adultos frequentemente se feriam”, observa a narradora. A violência física era não só um método pedagógico como uma maneira de resolver conflitos. De certa forma, ainda que assumisse contornos próprios, a lógica da famosa vendetta não havia sido abolida.

Ferrante é clara a respeito do que significava ser uma jovem mulher em um bairro pobre da Nápoles dos anos 1950. Enquanto Elena tem a chance de prosseguir com os estudos até o ginásio e o liceu, Lila é impedida de fazer o mesmo. Naquele tempo e lugar, uma garota que recebesse uma instrução como a da narradora era considerada a exceção, não a regra. (Na verdade, os próprios homens de condição social semelhante dificilmente tinham a chance de virar outra coisa que não aprendizes do ofício dos pais.) A própria Grazia Deledda, a italiana vencedora do Nobel de Literatura cujos romances Elena lê com frequência, pôde apenas assistir a algumas aulas particulares depois do fim do ensino básico reservado às meninas. As lições extras, porém, que aproximaram Grazia de seu objetivo de tornar-se uma escritora reconhecida, não estavam ao alcance de todas. Se quisessem evitar um confronto com os familiares, as mulheres deveriam, depois de aprender e exercitar as tarefas do lar, aguardar pacientemente uma boa proposta de casamento.

É (talvez) uma desproporção mínima no nível de instrução de seus pais, ou mesmo na percepção e adequação aos novos tempos, que faz com que as garotas sigam direções praticamente opostas. A disparidade não se estende ao poder aquisitivo das famílias, bastante similar — tanto Elena quanto Lila traçam, na infância e na adolescência, planos para escapar da pobreza. No bairro, porém, é possível observar uma desigualdade social mais ampla. E é em parte o dinheiro que gere as relações do lugar, garantindo a influência ou o controle dos que têm mais sobre os que têm menos. Não à toa, os personagens de A amiga genial são definidos, ainda no início, tanto pelo sobrenome que carregam quanto pela função que exercem. O sapateiro. O contínuo. O marceneiro.

A barreira imposta aos estudos de Lila parece mais cruel na medida em que sua inteligência (tanto quanto sua personalidade combativa) mostra-se muito superior à dos outros garotos e garotas. Desde criança, Elena se esforça para alcançar um desempenho que Lila atinge naturalmente. Sua capacidade de raciocínio é assombrosa. Quando os caminhos das duas se separam, os livros que Lila retira na biblioteca da escola regular permitem que ela siga no encalço de Elena, estudando latim e grego por conta própria.

Os livros, aliás, são elementos importantes desde o começo de sua amizade. Na infância, é marcante a passagem em que as garotas, logo depois de deixarem as bonecas, descobrem juntas a literatura. Além de Coração, clássico juvenil de Edmondo de Amicis, Elena e Lila leem e releem Mulherzinhas, de Louisa May Alcott. Graças a esse último, desejam escrever um romance algum dia. De Lila, o sonho vai ficando mais distante — para sempre uma espécie de fantasia infantil. De Elena, mais próximo.

Nesse vai e vem, suas vidas parecem uma gangorra. “Era como se, por uma magia malévola, a alegria ou a dor de uma implicasse a dor ou a alegria da outra”, escreve Elena. O que uma conquista ou atinge, a outra deseja. Mesmo com tanto espaço para a inveja — inevitável naquele contexto —, o afeto e a solidariedade entre as duas é evidente. Lila, generosa, torce por Elena. “Você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres”, diz, na frase mais dolorosa de todo o livro. Elena, que identifica o potencial ilimitado da amiga, não sabe bem como acomodar seu desânimo quando suas vidas tomam rumos diferentes. O que se percebe é sua confusão, causada, em parte, pelos contratempos do processo de amadurecimento — pela necessidade de definir e encontrar a si mesma, um indivíduo diferente de Lila.

De todas as qualidades de Lila que Elena, por afeto e reconhecimento, desejaria possuir, a principal é sua capacidade de se expressar por escrito. Nesse sentido, A amiga genial não deixa de ser uma parábola ardilosa sobre a influência. Quanto de Lila — de seu discernimento, de seus interesses, de suas ideias — há na prosa de Elena? Entre o manifesto e o oculto, talvez a própria Elena não tenha certeza. E é a sutileza com que Ferrante assinala o jogo de interferências o maior trunfo do livro, talvez da série.

“Saberia dar vida a um objeto, deixá-lo retorcer-se em uníssono com a minha?”, pergunta Elena, que deseja imitar o estilo de uma carta de Lila que acaba de receber. Em seguida, consciente ou inconscientemente, ela — décadas depois de ler as palavras de Lila na carta — descreve o ambiente ao seu redor em consonância com o próprio humor: “As panelas brilhavam, a mesa rangia, o teto pesava do alto, o ar noturno e o mar premiam dos lados”. Por fim, Elena diz se sentir “humilhada pela capacidade de escrita de Lila”. Ela admite que falhou em sua tentativa de imitar o estilo da amiga ou nem se deu conta de que acabou de fazê-lo?

Ao escrever, Elena quer se “libertar dos tons artificiosos, das frases muito rígidas”; quer “experimentar uma escrita fluida e envolvente como a de Lila”. Em dado momento, quando de fato alcança o resultado que vinha buscando, fica feliz ao descobrir nele não a maneira de escrever de Lila, a voz de Lila, mas a sua. É significativo que Lila, em uma cena posterior, faça correções no texto de que Elena tanto se orgulha — e que via como seu. Nada disso é gratuito.

A narradora menciona frequentemente “a língua de hoje” ou “as palavras de hoje”, ressaltando o tempo transcorrido entre o momento presente e os eventos narrados. Haverá, ainda, alguma interferência de Lila? Certamente.

Apesar de escrever em algum ponto da maturidade, não se sabe, neste primeiro livro, como a vida de ambas se desenrolou. Sabe-se que se casaram e tiveram filhos, e que Elena vive em Turim e Lila (antes de desaparecer) continua morando em Nápoles. Mais do que isso, é preciso esperar pelos próximos volumes. A expectativa é grande.

Escrito por
Camila von Holdefer