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A MENINA IRADA

A menina era tão pequena, tão bonitinha, tão graciosa, mas tão cheia de cólera.
Não havia o que escapasse. Ela tinha raiva. Muita raiva.
Se a mãe fizesse um doce, ela reclamava, estava muito, doce xingava a mãe, jogava o doce no
chão. O irmão trazia uma flor: para alegrar o seu dia. Ela despejava o jarro na cabeça do irmão.
Seu idiota, não sabe que tenho alergia?
Um dia era o colega de classe, no outro a vizinha da frente. Sempre havia alguém que ela
achava que a perseguia, queria lhe fazer mal. A cada dia, alguém era a bola da vez, recebia
todo o seu ódio, seus palavrões. E ela não ficava só nas palavras, não. Pegava o celular e enchia
as redes sociais com o mais atordoante linguajar. Ninguém mais sabia o que fazer com aquela
menina colérica.
Tentar não custa, não é? O avô, muito paciente, propôs um jogo para a pequena:
Cada vez que você pensar em bater em alguém, ou vontade de xingar alguém, vai fazer uma
bola no seu corpo, com essas canetas aqui.
A menina topou. Até que foi divertido, porque ela ficou com as canetas na mão o dia inteiro.
Na hora do jantar, o avô entrou na sala e começou a dar risada. A menina quis saber o que era
tão engraçado.
Venha aqui, neta, olhe-se no espelho.
Quando ela se viu, ficou sem saber o que falar. Mas, mas, eu estou toda colorida.
Pois é, pense no que acontece com você, esse sentimento de raiva mancha você por dentro.
Difícil o avô explicar que a ira é um sentimento de quem tem muitas expectativas e acaba por ser frustrada. Ela ainda é pequena, vai ter que aprender, um dia.
Difícil o avô explicar para a neta o tamanho do sofrimento dela.
Por enquanto, ele fala para ela ir tomar um banho. Vão ter que conversar bastante sobre as
cores da alma.
May Parreira