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UMA BÁ PARA A VIDA

Darvíria era o nome de batismo. Dalva o nome artístico. Com o tempo, virou Zaza, Zé, Bá. Hoje, ela faria 95 anos. Era mais velha que mamãe. Chegou antes de eu nascer. Cuidou de mim, depois da June, aconselhou e socorreu todas as tias, criou minhas filhas, meus sobrinhos, e viu três de meus netos nascerem. Foi a melhor amiga de mamãe. Cuidou de papai nos momentos tão difíceis. Era brava, invocada, respondona – abriu a porta do carro no cruzamento da Bandeirantes, durante uma briga comigo, eu desço já. Corajosa e muito inteligente. Nasceu na roça. A Escola rural tinha uma sala, e as turmas eram divididas por fileiras. Ela se sobressaía. O trabalho na lavoura para ajudar Dona Justa, sua mãe, a tirou do futuro como professora, o sonho. Porém foi nossa professora. Minha irmã e eu dormíamos ao som de suas histórias, decoradas e contadas todas as vezes da mesma maneira, com a pontuação exata do livro. A cozinha ficava bem embaixo de nosso quarto. E quando estávamos prontas batíamos, com dos nós dos dedos, no assoalho para avisá-la. E ela chegava, nosso livro falante. Cada dia, uma pedia sua história favorita. As três cabritas encantadas, a princesa que tecia mantos com urtigas, a outra que pedia um vestido com todos os seres do mar. Depois que aprendi a ler, ganhava os livros de Monteiro Lobato. A cada aniversário, um livro e um cartão com desejos de felicidade eterna, isso até o último minuto. E os cartões eram para toda a família. Quando ficou mais velha, a substituí na cozinha – o seu feijão é melhor que o meu, dizia. Meu marido ficava de prosa com ela, depois que todos se recolhiam, adorava os causos do passado. E quantos causos ela sabia. Quanto eu aprendi com a minha Bá. Um dia com calma, escreverei minhas memórias e meu aprendizado. Quando adoeceu, levei-a pro meu quarto e, na insônia vigilante, eu pintava mandalas. Hoje, choro sua falta. Procurei fotos, e antes de chorar ainda mais, achei essas duas. Uma no casamento da Tati, em 2001. A outra, com June, em algum ano antes de 2009. Nós aqui, brindamos à sua vida.

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EU TENHO MÁTRIA

May Parreira E Ferreira

Estamos fazendo brincadeiras nos zaps trocados entre amigos e familiares. Hahaha, eu digo, tu dizes, eles dizem. Hoje, embaixo da notícia principal, vinha na tarja vermelha “os cartórios estimam os óbitos em 173% a mais”. Em vez de sete mil, estaremos próximos dos vinte mil.
Vinte mil avós, avôs, irmãos, tios, pais, pais, filhos, netos, amigos. Marias e Clarices chorando nas tumbas de caixões, cheios de carne conhecida, que não precisavam estar lá. Nossa, você não pode pensar assim. Sim, posso pensar, sim. Pensar é livre pensar. O pensamento não é aprisionante, não é aprisionado se solto para livre pensar. No meu pensamento, acho que a morte de minha mãe, aos oitenta e sete anos, por uma leucemia mieloide aguda, foi antecipada. Gostaria que ela vivesse mais dez, quinze anos. Sinto a sua falta. Sou órfã, desde então. A morte do pai me deu força para a vida. Me deu coragem e literatura para todo o
sempre. A morte da mãe, me deixou órfã. Sabe o que é isso? Claro que sabe. Já perdeu alguém. Eu, a que cuida, a que resolve, a que acalma e tranquiliza, não tenho mais alguém que me cuide (desculpem-me filhas e marido e família, mas é diferente). Sabe aquela coisa de dizer, mãe, hoje estou triste. Ou, Mama, sabe o que eu fiz? Nunca mais. Tá certo, a quarentena deixa a gente emocional, mole mesmo. Mas o que me deixa mais triste, é que com essa crise na saúde (que não é de hoje no país), nós tenhamos de lidar com uma crise política. A falta de
rumo político é o que me deixa deprimida. Tem quem fique discutindo a volta ao poder do comunismo. Citam ato institucional como se fosse tabuada do dois. Pessoas na frente do planalto agredindo profissionais da saúde. Pessoas chutando jornalistas. Que mundo é este?
Este é o mundo que você quer para o seu filho? Pense longe. Daqui a vinte anos. Como vai querer ser lembrado? Sua filha vai sentir sua falta, quando morrer aos 70, por descuido? Seus netos vão chorar, por você não ter guardado o isolamento? Consciência é pouco. Eu tenho mátria. Meu pai levo comigo. Esta pátria não me leva.

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DETALHES ÍNFIMOS

May Parreira E Ferreira
30 de abril às 22:51 ·
De tudo que acontece podemos tirar um aprendizado, das menores coisas, dos ínfimos detalhes. É só saber olhar. E acho que o que tem nos desanimado muito é a falta de um Norte, um exemplo maior, do qual nos orgulhar, nos moldar. A cada dia, o acordar sempre é uma interrogação. Qual a notícia do dia? Já passamos quinhentas mortes por dia? Ultrapassaremos a Itália? Além das prosaicas, qual polêmica presidencial ganhará os noticiários hoje? Abro o twitter e em dez minutos sei dos desastres familiares da primeira família, agora com um zeroquatro disparando asneiras genéticas. Meujesuscristinho, onde isso vai parar? Voltando aos aprendizados. Dia sim dia não, corro com o Viggo. Fazemos treino para dez quilômetros. O app vai dizendo, mantenha o ritmo, corra mais forte, bom trabalho, sorria se puder. O cão, nem se importa. Ele vai no trotinho leve, não daria pra suar a camisa, como costumamos dizer. Corremos em estrada de terra. Os animais encontrados são outros cães, mas podem ser cavalos, vacas, lagartos (alguns bem grandes), capivaras e humanos. Os humanos quando veem o pastor, ou param ou atravessam a estrada. Ele é tranquilo, nunca atacou ninguém nem nenhuns. Mas, e aqui pego o gancho do início, alguns cães quando ao lado de seus possíveis donos, se enchem de coragem,
arregaçam os dentes e vêm pra cima. Meu dócil cão, se quisesse arrebentar a trela, não teria problema em me derrubar ou me arrastar com ele (a guia vai sempre presa à pochete de corrida). Não. Ele ouve o meu “não” e aguarda. Aí, eu paro, emposto a voz e grito, pra casa. E o vira-lata, vira pro outro lado, enfia o rabo entre as pernas e se vai. Aprendi que se você fala com autoridade, o bicho respeita. Fim de treino, nova passada pelas notícias e vejo o presidente desdizer o que disse mais cedo. Joga pra torcida. Se pegar pegou, se não, recua. Feito os cachorros da estrada. E nossa população estradeira, ribeirinha, periférica fica confusa. Sentimento partido. Ficar ou correr? Entrar ou sair? Sem saber que o que vem com dentes arreganhados, cheio de machezas, é um dos tantos vira-latas acovardados.

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SABE O QUE É EMPATIA?

May Parreira E Ferreira
29 de abril às 22:32
Hoje, 29 de abril de 20, precisei realinhar as expectativas social, familiar e financeira. Não as minhas expectativas, porque desde o início da pandemia até o presente pandemônio (desculpe-me o clichê), sei o que viria. Mas de quem de certo modo está ligado a mim. Muitas pessoas estavam felizes de sair do isolamento social em onze de maio. Sério? Estamos mais de quinhentos anos atrasados em relação ao mundo europeu, mais de dois mil anos atrasados ao mundo asiático, e alguns meses à pandemia da covid19. É só ter um pouquinho de paciência pra fazer a busca das tabelas de contaminação e mortes pelo mundo. Por que não aprender com a experiência alheia? Porque dá trabalho. Dá trabalho descascar um abacaxi, é mais fácil comer banana. Dá trabalho educar, é mais fácil colocar um smartqualquercoisa nas mãos da criança. Ter saúde dá um trabalho danado, implica em hábitos, alimentação, exercícios. Além, claro, de grana suficiente pra tudo isso. O que a maior parte da população brasileira não tem, não pode e nem sequer imagina como conseguir. Nessa parte do outro lado da ilha, na qual vivemos nós do Instagram e Facebook, existem centenas de milhares de pessoas que estão correndo um enorme risco. Risco de ter suas vidas acabadas, pura e simplesmente. Uma maneira natural de acabar com a desigualdade social. Morte aos pobres. E daí? Simples assim. Não dói em mim, saia pra rua. Não dói em mim, abra o comércio. Não dói em mim, sinto muito, mas alguém vai morrer. Isto se chama falta de empatia. E se você concorda com quem fala isso, você também sofre da mesma doença. Falta de empatia. Quem concorda com carreatas, com flexibilização da quarentena, com e daí, está cometendo o mesmo desvio. Porque quem vai morrer antes, não é você no conforto de sua sala bem equipada e compras online. São os pobrezinhos que andam de metrô, de ônibus, lá da periferia. São os profissionais da saúde que lutam para sobreviver, com marcas nos rostos pelas máscaras, e fazem sobreviver alguém desconhecido seu. Não quero ser pessimista, mas a luz do fim do túnel está distante. A nossa crise, de política, de economia, de saúde, está se tornando crônica. E nessas horas, a empatia é o melhor remédio.

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O INFERNO SÃO OS OUTROS

May Parreira
Entrar no Facebook e ver pessoas, a quem quero muito bem, postarem e repostarem comentários e reportagens de sites duvidosos, por duvidarem da mídia tradicional, é triste. Em qualquer situação é triste, em quarentena compulsória é ainda mais triste.
Já escrevi sobre o mecanismo de NEGAÇÃO. Caso não se lembre, a negação refere-se aos fatos da realidade que são rejeitados e substituídos por uma fantasia ou ação.
Explico. Há muitos anos, muitos, tive uma amiga que ligou pra me dizer que sonhou com um incêndio. Ela via o fogo e ria, ria, ria. Meses depois me ligou de novo, pra perguntar se eu sabia da traição do marido. Sim, eu sabia. E disse que ela também sabia, estava evidente. E que ela mesma havia dito que gostava de ver o circo pegar fogo. Já disse, tive uma amiga.
As pessoas que sofrem de negação são muito sugestionáveis. Não confiam no que veem, porque não veem a realidade. A televisão é falsa, os jornais são falsos, e tudo gira ao redor do seu próprio umbigo. Não é possível ver as mídias de outros países, não é possível aprender com a experiência do outro. Não é possível que esteja sendo enganada(o).
Todo o mundo está errado. Todo o mundo produz notícias falsas. E, se você não está comigo, está contra mim. Guerra, ódio, irmão contra irmão. Nunca foi tão visível esse mecanismo. O inferno são os outros. Sartre não duraria um dia nas redes sociais.
Infelizmente, a realidade sempre vence. E quando ela vencer, o próximo passo no processo é culpar, o que desloca a responsabilidade para outra pessoa ou coisa.
Num momento em que estamos todos unidos contra um inimigo invisível, contra algo que pode matar muitos de nossos amigos (inclusive os que negam a crueza da realidade), é muito triste saber que pessoas, a quem queremos bem, fujam da realidade e digam que os inimigos somos nós.

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CANSAÇO OUTONAL

May Parreira
O outono chega num pulo, num salto, da noite pro dia. Que começo mais insosso para uma crônica. Semana passada, a água da piscina era boa para nadar. No último sábado, já não deu. Fria demais e o Sol sem força para aquecê-la. Um dia, vou dormir bem, animada com o próximo dia. E quando o próximo chega, ai que preguiça. Levantar, fazer café, tomar o café, pão ou iogurte com aveia? Laranja ou mamão? Voltar pra cama ou lavar a roupa? Ai, que preguiça.
As tarefas são muitas. As leituras são muitas. Os barulhos são muitos, na cidade ou na roça. Os silêncios são muitos. Existe um cansaço. O corpo se recusa. O corpo envelhece.
Percebo os emaranhados do colo ao fazer as lives. Puxa, por dentro não me vejo assim, papel crepe. Tinha razão mamãe. Depois dos sessenta, acabou o uso de camisetas. Lenços no pescoço, indispensáveis.
Hoje, o cansaço. Dor nos olhos, nos maxilares, o ar seco incomoda. O corpo se manifesta. O friozinho ajuda. Chegou o outono, ontem à noite.
Talvez canse o isolamento. Sou gregária, preciso do contato. Falo com a família, com amigos. Benditos aplicativos, nos aproximam, preenchem uma lacuna de algo que não existia. O fado diz, estando em tua presença, quanta saudade de ti. Não conhecia essa saudade. Nenhum de nós conhecia. Estamos todos nela, pois. Ou não estamos nenhuns.
Cortei, hoje, os pés de framboesas. Quero frutas novas para as geleias natalinas. A fruta é delicada, suculenta, saborosa. A moita é espinhosa, difícil, provoca dor e inflamações. Conheço pessoas assim. Você é atraído pela beleza da fruta e enfia a mão para pegá-la. Na volta, os espinhos o impedem de tirar a mão. Quanto mais se debate para sair, mais espinhos se agarram a você. Existe um jeito para retirar as framboesas. Existe um jeito para escrever crônicas. A gente sofre no começo, os arranhões são vários, alguns rasgam a pele, mesmo.
Nada que uma panaceia não resolva.
Para esse cansaço nenhuma panaceia ou panegírico. Nenhum pandeiraço ou panelaço. O outono, hoje, me pegou de manhã e não soube o que fazer comigo. As friagens vieram todas, e eu quase não saí
do quarto. São quase onze da noite e eu tenho dor nas sobrancelhas. Hoje, a tarde foi esplendorosa.
Quem sabe o amanhã seja igualmente resplandecente. Quem sabe até, amanhã meu corpo volte pra mim. Ligeiro e confortável.
Deixo o texto de lado e durmo.
A manhã chega devagar. Nuvens, o verde do jardim aparado. As fotos do pôr do sol em todos os lugares de São Paulo ontem. Aqui na roça, o espetáculo de cores acontece com frequência.
As pessoas confinadas resolveram se voltar à natureza. E a descobriram em sua exuberância. A natureza mudou? Não. Mudaram os olhares, as sensações, os registros. As selfies mudaram de foco. E eu amanheci sem dor.

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NO REINO DAS RÃS

May Parreira
Quando, no Reino da Terraplana, as rãs ocupavam a área do pântano, começou uma desordem entre elas. Nenhumas se respeitavam, as brigas eram medonhas, agressões à mancheia.
E começaram os pedidos a Júpiter, queremos um rei, queremos um rei. Precisamos de alguém a quem possamos obedecer, alguém que imponha leis, que nos diga o certo e o errado.
Queremos um rei.
Foi tanto coaxar, que Júpiter num momento de excessivo cansaço com toda a balbúrdia, atirou na lagoa um pedaço de pau, querem um rei? Pois, aqui vai um.
O pau fez barulho ao tocar a água, e as ondas assustaram o ranário. Foi um espalhafato; as fêmeas saltitantes, os machos no pula que pula, como fazem sempre as rãs, em tempos de crise. E todos se esconderam entre raízes de juncos e taboas. Um susto pra valer.
Silêncio.
Um lamaçal silencioso foi o que se ouviu por longo tempo.
Esopo nos diz que os
instintos da fera, são muitas vezes, provocados pela presa.
Uma dessas presas assustadas, um macho destemido, colocou a cabeça pra fora e viu que o rei era grande, porém pacato. E resolveu pular. O rei nem se mexeu. Outra rã seguiu a primeira, uma terceira se juntou a elas. E assim, elas saíram do isolamento e começaram a se divertir nas folhas d’água. Rodearam o rei, encarapitaram-se sobre ele, que continuava quieto, como ficam normalmente os pedaços de pau.
Daí a se esgoelarem não demorou nada. Ora Júpiter, leve esse rei embora, ele não faz nada, não nos pune, não nos intimida. Queremos um novo rei.
Júpiter ordena a uma cegonha, que por ali passava, que tomasse conta da lagoa. É claro, que reinarei com disposição, afinal vou tirar o papo da miséria.
A cegonha, única na lagoa, uma perna aqui, uma rã; outra perna ali, duas rãs. E engole o quanto pode. Para desespero da população reclamante.
Ó Júpiter, esse rei é desalmado, ele nos devora. É cruel, desalmado.
E o maior dos deuses responde sem pressa, agora aguentem. O primeiro rei não estava bom? Era um verdadeiro presente. Reclamaram tanto, lhes dei outro, vivo até demais.
Pois não reclamem. O próximo pode ser ainda pior.

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MAIS AMOR, POR FAVOR

O meu dia a dia no mundo da Terra Redonda é tão bom, mas tão bom, que me apiedo de quem vive nos primórdios da Terra Plana. Está certo que meu cão não fala comigo, mas eu entendo tudo o que ele quer dizer. Minhas gatas não falam por preguiça. Minha casa é um alvoroço de maritacas, gritos de quero-queros, silvos de seriemas, troques de tucanos. Ainda bem que não falam. Eu adoro o silêncio.
Existem pessoas que falam muito. Os habitantes da linha reta costumam falar muito e xingar muito. Gritam argumentos, e se gritam é porque não querem conversar. Publicam notícias antigas, com todos os vitupérios, insultos, desrespeitos a tudo que não esteja com eles. Eles quem? Não sei.
Nas mídias sociais existe uma guerra, que claro, pode se tornar uma guerra civil se a coisa sair do controle. Se você já assistiu à série russa O Caminho dos Tormentos, lá está bem desenhado
o que acontece quando o próprio povo mata seus irmãos. Triste.
Pessoas que vomitam ódio. Pra quê? Para projetar no outro o desencanto interno? Para deixar o exterior bagunçado e destruído como o interior?
Sei que existe muito ódio no coração de muita gente. Mais amor no coração (que clichê), deveria ser um mantra (sem pieguice).
O amor acaba? Sim, o amor acaba. Onde? Quando? Como? Nos pergunta Paulo Mendes Campos. Mas este amor, do qual ele fala, acaba para recomeçar, no nosso globo terrestre.
Melhor ler mais, melhor ouvir mais música. Pintar mandalas, fazer ginástica na cozinha, aprender as receitas da @RitaLobo. Tem tanta coisa boa que pode ser falada, discutida, refletida. E vista e escutada e feita. Coisas que nos fazem bem. Um sorvete, um poema, uma taça de vinho.
Enquanto isso, a gente vai escrevendo, falando e falando e falando, até sair do outro lado, afinal, nossa terra é redonda.
Dizem que as mulheres falam muito, e existe um motivo para isso. Se os bebês fossem criados por homens, teríamos uma humanidade muda. Precisamos da fala das mulheres, para contarmos histórias, o boca a boca que nos trouxe até aqui

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O LEÃO ENFERMO

Fedro publicou suas fábulas entre os reinados de Tibério e Calígula (14 d.C. – 41 d.C.), tempos de crise e hostilidades sociais. O clima não era nada propício para manifestações artísticas.
Mesmo assim ele ousou contar uma fábula que foi recontada muitas vezes depois.

Era uma vez um Rei Leão.
Existiram, depois dele, outros reis leões simpáticos, gregários e não adeptos da violência. Sabemos que em nenhuma época os leões foram ou serão veganos. Mas esta história se passa na época da Terra Plana, os animais falavam e (alguns) eram cruéis. Muito cruéis.
Pois bem, o Rei Leão ficou doente (ou fingiu-se doente, por comodidade).
Os ministros fizeram circular um edital sobre a doença real, ordenando a cada espécie que mandasse um representante à majestática caverna.
E à entrada da cova, fez-se fila.
Muitos súditos se manifestaram, alegres, afinal alguns veriam o
rei pela primeira vez.
A raposa, representante dos canídeos, recebeu também o convite. Seu dever era ir, e ponto.
Na entrada da caverna, a astuta (ui, que clichê) raposa, observou o entorno. Tem alguma coisa muito estranha por aqui, pensou. Pensou um pouco mais e gritou:
Como estais, Majestade?
Estou melhor, obrigado. Entre, quero ver-te.
Peço mil perdões, mas a Prudência aconselhou-me cautela para lugares nos quais só se veem entradas e nenhum retorno. Lamento muitíssimo, mas minha visita está cancelada.
Salvou-se a raposa, e todos os canídeos. O meu pastor alemão agradece.

Fim.

Fedro faz uma comparação entre a doença do rei e a doença do poder, que devora(va) os habitantes do reino.
Pobre de quem cai nessa armadilha.

May Parreira

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A MENINA IRADA

A menina era tão pequena, tão bonitinha, tão graciosa, mas tão cheia de cólera.
Não havia o que escapasse. Ela tinha raiva. Muita raiva.
Se a mãe fizesse um doce, ela reclamava, estava muito, doce xingava a mãe, jogava o doce no
chão. O irmão trazia uma flor: para alegrar o seu dia. Ela despejava o jarro na cabeça do irmão.
Seu idiota, não sabe que tenho alergia?
Um dia era o colega de classe, no outro a vizinha da frente. Sempre havia alguém que ela
achava que a perseguia, queria lhe fazer mal. A cada dia, alguém era a bola da vez, recebia
todo o seu ódio, seus palavrões. E ela não ficava só nas palavras, não. Pegava o celular e enchia
as redes sociais com o mais atordoante linguajar. Ninguém mais sabia o que fazer com aquela
menina colérica.
Tentar não custa, não é? O avô, muito paciente, propôs um jogo para a pequena:
Cada vez que você pensar em bater em alguém, ou vontade de xingar alguém, vai fazer uma
bola no seu corpo, com essas canetas aqui.
A menina topou. Até que foi divertido, porque ela ficou com as canetas na mão o dia inteiro.
Na hora do jantar, o avô entrou na sala e começou a dar risada. A menina quis saber o que era
tão engraçado.
Venha aqui, neta, olhe-se no espelho.
Quando ela se viu, ficou sem saber o que falar. Mas, mas, eu estou toda colorida.
Pois é, pense no que acontece com você, esse sentimento de raiva mancha você por dentro.
Difícil o avô explicar que a ira é um sentimento de quem tem muitas expectativas e acaba por ser frustrada. Ela ainda é pequena, vai ter que aprender, um dia.
Difícil o avô explicar para a neta o tamanho do sofrimento dela.
Por enquanto, ele fala para ela ir tomar um banho. Vão ter que conversar bastante sobre as
cores da alma.
May Parreira