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O REI MACACO E A RAPOSA

Num reino distante, quando a Terra era plana, ainda, e os animais falavam, ainda, existiu uma
assembleia – ou outra reunião importante assim – para a eleição de um líder, alguém que
pudesse representar todos os seus habitantes.
Apresentaram-se vários animais. Uns muito fortes, uns muito espertos, outros um pouco
fortes e espertos. Alguns bastante conhecidos, outros que se manifestaram no momento.
Quando o macaco foi fazer sua apresentação caprichou em todas as miquices que sabia. Cambalhotas, caras e bocas, imitou gestos festivos, fez até arminha para os que
debochavam dos caçadores.
Delírio da arquibancada.
É ele, é ele, gritavam entusiasmados. E resolveram elegê-lo como o novo Rei.
A raposa, sempre a raposa – tão esperta que é – não tinha votado no macaco, ficava
matutando no porquê de escolherem alguém tão incapaz, desprepatado, amante das aparências, fã do espetáculo, tudo muito típico de políticos dos circos.
O macaco era alguém sem atributos pessoais relevantes para a raposa e outros que pensavam
como ela.
Ela, raposa, seguia matutando pela floresta, quando encontrou uma arapuca bem feita para incautos.
Correu ao palácio do Rei Macaco.
Encontrei um rico tesouro, mas não pude tocá-lo, porque tudo que há neste reino pertence ao senhor nosso Rei.
O Rei Macaco, pretencioso, arrogante e ganancioso, tomado pela vaidade de sua importância
e, claro, de olho no que poderia ganhar, foi às pressas verificar o tesouro.
Nem bem enfiou a mão na armadilha e záz, ficou preso.
A raposa, agora satisfeita de conseguir provar o que sempre soube, diz ao rei:
Se você, que pretende ser Rei, mostra-se incapaz de cuidar até de si mesmo…
Muitos habitantes daquela floresta puderam presenciar o incidente. Propuseram nova eleição
para a escolha do novo governante, já que o hipócrita macaco foi desmascarado.
Esopo nos dá dois finais:
O verdadeiro líder é aquele capaz de provar, em silêncio, suas qualidades.
As aparências externas pecam pela falta de consistência interna.
May Parreira

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O GATO METAMORFOSEADO

O gato era o que se pode chamar o gato. Lindo, de longos pelos sedosos, patas firmes, grandes, porte atlético. Vivia
num reino distante, muito além da fronteira, mas ainda na Terra Plana.
Neste o reino, os animais falavam e os deuses andavam de um lado para outro, metendo- se nas vidas uns dos outros e nas dos mortais.
Numa tarde comum, igual a todas as outras tardes, o gato viu uma linda donzela, tomando sol,
numa área avarandada, sob a sombra de jasmins. Delicada, fina, pequena. Apaixonou-se o gato.
Ficou desatinado, perdeu mesmo os sentidos. A donzela era um biscuit,
quase um amuse-bouche, com o qual ele não teria como sonhar.
Um desejo impossível.
Inalcançável.
O gato sofreu, chorou, miou muito sobre o muro.
A Lua ouviu o canto de sofrimento e paixão, e pediu à deusa Afrodite que ajudasse o bichano embuçado. A deusa se compadeceu.
E plaftplum.
Um jovem bem apessoado, um humano de formas exatas, airoso. O cara. Perfeito para a donzela. E lá foi ele efetivar a conquista.
Afrodite, deusa do amor, da beleza e do sexo; mas também velha como o tempo e sábia,
resolveu verificar se o gato tinha mesmo se transformado por completo. Queria dar à linda
moça um companheiro gentil.
Durante a noite, Afrodite soltou um rato gorducho e desavisado no quarto do jovem. Claro, que quando o gato dentro
do jovem viu o rato, num pulo de gato, agarrou a presa, devorando-a com prazer.
A moça que entrava naquele instante, ao ver a cena, saiu enojada para nunca mais voltar.
Conclusão de Esopo, o perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos.
foto: Carlos Cubi
May Parreira

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O PEIXE DESCONHECIDO

Havia um homem, grande pescador, que já tinha estado em todos os cantos do mundo. Era
conhecedor de todo tipo de peixe.
Um dia, ele pescou um espécime raro, que nunca tinha visto. Levou-o para casa, observou-o
muito bem, e fez comparações com as fotos de espécimes possíveis existentes em seus livros.
Nada.
O homem pescador não se deu por vencido. Levou o peixe para que um estudioso o
reconhecesse. O doutor em peixes estranhos disse que nunca tinha visto nada parecido e
recomendou ao homem pescador que levasse o seu peixe a um doutor que morava num reino
distante, governado por um rei que governava pelado.
O homem pescador, muito curioso, levou o peixe desconhecido ao tal doutor, que no
momento estava pescando no meio de um lago.
O doutor, especialista em peixes desconhecidos, pegou o peixe da mão do homem pescador,
olhou, olhou melhor, olhou de novo, e atirou o peixe n’água.
Por que o senhor fez isso? Indagou o homem pescador.
Porque eu sou o maior conhecedor de peixes desconhecidos do mundo inteiro e não conheço
este peixe. Se eu não conheço, ele não existe.
Fim
(May Parreira)

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A ROUPA NOVA DO REI

(de Hans Christian Andersen, publicado em 1837)

Um bandido, que vinha de outro reino, decidiu se esconder e fingir ser um alfaiate nas novas terras. Com um papo muito sedutor o ‘novo alfaiate’ conquista todo mundo e até consegue uma audiência com o Rei. Diga-se que o Rei era demais vaidoso se achava o mais inteligente do reino, talvez da Terra, que naquele tempo era plana.
Diz o falso alfaiate “De onde vim, inventei uma forma de tecer a melhor de todas as roupas; consigo tecer uma roupa que somente os inteligentes conseguem ver!”
O rei, vaidoso que só ele, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele.
O bandido recebeu baús cheios de rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros e exóticos, para a confecção das roupas. Ele guardou os tesouros, sentou-se e fingiu tecer fios invisíveis.
Os aldeões passavam pela alfaiataria e ele não parava a performance: puxava panos, cortava o ar, olhava com cara de quem poderia fazer melhor, refazia e pendurava nada no cabide.
Passaram-se semanas, e ele recebia dinheiro do rei.
Os súditos, para não parecerem estúpidos, passavam pela janela e, é claro, viam o tecido magnífico.
Um dia, o rei se cansou de esperar, e com seus ministros foram ver o progresso do alfaiate. O falso tecelão faz um movimento com as mãos demonstrando a mesa de trabalho vazia.
O rei, para não passar por estúpido exclama: “Que lindas vestes! Fizeste um trabalho magnífico!”, embora não visse nada além da mesa.
Os ministros suspiraram de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles quis se passar por incompetente ou incapaz.
E o rei resolveu marcar um grande desfile para exibir as vestes especiais. E durante a parada real, uma criança, inocente e sincera, gritou ” O rei está nu!”
Naquele momento o grito é uma panelada no ouvido do povo. Começaram a admitir que não enxergavam a nova roupa do rei.
Há versões em que dizem que o bandido foi punido, mas há também versões em que o rei faz pose, exibe sua roupa nova e faz com que todos fiquem com a dúvida se havia mesmo ou não a vestimenta.

(May Parreira)

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A NEGAÇÃO

Negação (Verneunung, em alemão) é um mecanismo de defesa, no qual a pessoa, de alguma forma inconsciente, não quer conhecimento de um desejo, fantasia, pensamento ou sentimento. Negar os fatos, às vezes, quer dizer que a pessoa está usando um mecanismo de defesa, para proteger a integridade de seu ego.

1 CONTROLE
A pessoa tenta controlar coisas que não consegue e ignora aquilo que precisa de mudança. Parece ridículo, mas é o que as pessoas costumam fazer quando estão com medo de encarar problemas ou situações graves.

2 PREPOTÊNCIA
A pessoa possui todas as respostas e nenhum pergunta. Quando alguém diz “Eu não preciso saber (pela mídia) já sei a resposta”, é um sinal forte de que alguma coisa está errada.

3 INTOLERÂNCIA
A pessoa está rodeada por eufemismos e gente que tenta maquiar os problemas – se esconde da realidade. Esse padrão normalmente vem acompanhado de grandes desastres.

(May Parreira)

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PARA LER EM CASA – Dicas recomen”tadas”

viaje sem sair de casa

PARA LER EM CASA – Dicas recomen”tadas”

Livros fazem você viajar sem sair de casa.

Menina a caminho – Raduan Nassar

Raduan Nassar, escreveu este primeiro trabalho de ficção no início dos anos 1960, mas Menina a caminho só foi publicado em 1997. Três dos contos, no livro, datam do início da década da década de 1970: Hoje de madrugada, Ventre seco e Aí pelas três da tarde. Mãozinhas de seda, é o único inédito, de 1996. O autor estreou na literatura em 1975, com Lavoura arcaica, uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Três anos depois, publicava a novela Um copo de cólera. Sobre os textos, só lendo para crer.

Retrato do artista enquanto coisa – Manoel de Barros

O autor dizia que “poesia deve ser coisa pouca”, porque “o esplendor da manhã não se abre com faca”, e se alguma coisa caracteriza as coisas não é a sua abertura, mas a sua clausura, o recolhimento, uma espécie de ensimesmamento expansivo (que se propaga por contágio). As coisas não se abrem nem vão em demanda de um nome: são “coisa que não faz nome para explicar.” O poeta não ostenta o ofício de nomear. Trata-se de propagar a linguagem do desnome, aquela que deslimita, e permite, pelas frestas que assim se introduzem, que passe o surpreendente, o inaudito, uma espécie de “espantação” sem fim.
https://www.publico.pt/2001/01/27/jornal/retrato-do-artista-enquanto-coisa-154118

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector

O livro conta a história de amor de Loriley (Lóri) com Ulisses. Desde que se conhecem, tem início uma experiência amorosa que foge aos padrões. Trata-se de uma aprendizagem, estimulada por Ulisses, mas que ambos experimentam: o objetivo é amadurecer a relação e aguardar o momento certo – pleno – para fazer amor. A narrativa acompanha o lento e saboroso processo de espera, quando enfim poderão usufruir de uma troca afetiva densa e livre.
“Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu”.
https://claricelispectorims.com.br/livro-a-livro/uma-aprendizagem-ou-o-livro-dos-prazeres/

Viagem a Portugal – José Saramago

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país lés a lés a convite do Círculo de Leitores, que comemorava o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Disse o autor após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos»
https://www.josesaramago.org/viagem-portugal-1981/

Todos os contos – Clarice Lispector

Lançada em 2016, a obra reúne os contos escritos por Clarice Lispector. O organizador e prefaciador da obra é o escritor norte-americano Benjamin Moser, biógrafo da autora. É a primeira vez que uma obra coletânea reúne todos os contos escritos por Lispector em um único volume. Os 85 contos, muitos deles sendo publicados anteriormente apenas na imprensa, são apresentados na ordem cronológica. O livro foi lançado primeiramente nos Estados Unidos, em 2015 pela editora New Directions, com tradução de Katrina Dodson, e esteve presente na lista dos livros mais importantes do ano do jornal The New York Times.

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Isto não é uma resenha 2

Isto não é uma resenha 2

Você já ouviu falar em soft power? Se sim, vou repetir. Se não, eu conto aqui o que é e para serve. Em geral, os cientistas políticos consideram duas moedas de influência no mundo: o hard power e o soft power. A primeira, todo mundo conhece, é antiga e se dá pelo exercício do poder econômico e bélico. É pelo uso da força, da coerção, do mercado, um tipo de dominação comum em toda a história do mundo.

Já o soft power…

Há quase três década, anos 1990, o cientista político americano e ex-funcionário do governo Clinton, Joseph Nye apresentou uma ideia nas páginas de Política Externa. Ele chamou de soft power, um conceito que pegou fogo e passou a definir a era pós-Guerra Fria.

Nye argumentou que os Estados Unidos, depois do final da Segunda Guerra Mundial, tinham uma fonte única de poder a ser exercida. Seu poder não coercitivo – para consolidar a posição de liderança em o mundo.

O Hard power é fácil de medir, é claro. Podemos contar o número de mísseis, tanques e tropas. Mas qual era o conteúdo da influência sutil, do poder brando do convencimento, do way of life? Nye colocou-o em três categorias: cultural, ideológico e institucional.

Não vou me estender nos conceitos.

Sabemos que um dia o mundo inteiro desejou uma caça jeans como a de James Dean, todo mundo chorou ao ver Scarlet O´Hara dizer que jamais sentiria fome, em O Vento Levou. Sim, Hollywood é a expressão máxima de soft power.

Quando “Parasita” foi coroado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, um projeto de 25 anos foi premiado junto. Segundo dados do Korean http://film.org, a audiência do longa foi de 10 milhões de telespectadores, cerca de 20% de toda a população.

Um em cada 5 coreanos assistiu a “Parasita”….

Em 1994, o “Jurassic Park” colocou a indústria sul-coreana de audiovisual em alerta. Nos três meses em que ficou em cartaz, a obra de Steven Spielberg dominou as salas de exibição. Ato contínuo, o presidente Kim Young-Sam resolveu lançar as bases das primeiras medidas de financiamento do cinema coreano.

A Lei do Audiovisual, de 1995, tinha por objetivo criar um fundo de investimento, além de oferecer incentivos fiscais ao setor. No mesmo ano, foi criado ainda o Departamento de Indústria da Cultura. E daí a gente já sabe que investimentos governamentais nas produções audiovisuais, que fidelizam público local, e preparam os filmes para o mercado internacional, e a capacidade dos cineastas em elaborar roteiros de gênero misto e flertar com o cinema de autor.

Os personagens sempre são redondos, não há o só bonzinho ou só do mal.

Impossível também não destacar a participação de Bong Joon-ho na indústria coreana. Seu longa “Memórias de um Assassino”, de 2003, deixa evidente que o thriller policial seria um dos gêneros fortes da onda coreana.

As novelas da Turquia, disponíveis no Netflix, trazem muito da cultura turca, suas comidas, seus hábitos e divisões culturais. Kurt Seyit é pura aula de história da Rússia e Turquia durante e depois da Primeira Grande Guerra.

Eu adoro conhecer outras culturas. Os livros são uma ótima forma de entrar no mundo mágico das terras distantes e, agora, os filmes também. Ter acesso ao modo de fazer papel, ou o hábito de historiadores registrarem todo o ocorrido nas cortes imperiais do século XV, ou as delícias da culinária bem-feita, é ideal para quem quer sossego, vinho e filme.

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Isto não é uma resenha

Isto não é uma resenha
Isto não é uma resenha.

Francisco Buarque de Hollanda, carioca de 76 anos, é um dos mais populares compositores (inter)nacionais. Além das músicas, escreveu as peças Roda Viva (1968), Calabar (com Ruy Guerra, 1973), Gota D’água (com Paulo Pontes, 1975), Ópera do Malandro (1979); os livros desde Estorvo (1991), Budapeste (2003), até este Essa gente (2019).

Na orelha do livro, Sérgio Rodrigues nos diz que: numa primeira leitura, é uma comédia de costumes divertida e cruel. E no final, viramos o livro pelo avesso para transformar o fundo em forma e desviar os olhos da história para a História.

Sim Essa gente, somos nós, o povo brasileiro. O protagonista é um escritor às voltas com um novo e inacabado romance (clichê), que tem duas ex-mulheres (clichê), um filho adolescente com quem não se dá (clichê), que frequenta prostitutas (clichê), que bebe…

A forma dos capítulos, curtos e dispostos como um diário, é interessante (não encontro palavra melhor). Narradores diversos, às vezes um telefonema de um lado só do fio, uma carta, uma notícia de jornal; e às vezes um narrador em terceira pessoa.

Há um elemento caleidoscópico que evoca o que o próprio Chico Buarque chamou se “onirismo desperto”, também presente, de formas diferentes, em romances como Estorvo e Leite derramado (https://revistaescuta.wordpress.com/). Nem de fatos, nem sonhos, o que há é uma síntese de tudo isso num plano contínuo, uma espécie de fluxo de consciência ordenada (@companhiadasletras).

Aí, você começa a ler.

Na página 6, esta frase: “Desço à rua sempre que as letras endurecem no papel, comprimidas entre si como as pequenas pedras em preto e branco do calçamento que piso”, nos remete ao próprio Chico. E vez ou outra ele aparece. Mas…

O que vem depois do mas é sempre algo do qual já fomos advertidos.

Não tive a surpresa que esperava.

A linguagem é frouxa, antiquada, sem frescor algum. Bem, muitas pessoas deixaram comentários elogiadíssimos. Não vou conseguir.

O livro é bom, um final que faz você voltar de novo e de novo e de novo. Mas nada daquele impacto que foi Budapeste.

ESSA GENTE (nós o povo) se vê retratada. Sem pieguice, sem politização, sem frescura nenhuma. Por baixo, as águas do Rio falam da gente que é morta por policiais, que é chutada pelo ricaço, que sobe ou desce o morro no mototáxi. Um retrato bem feito, com técnica.

Pra mim, faltou a espiral sempre tão inspirada (perdão pelo trocadilho). Não fui enlevada.

Acabei o livro e, ao invés de tomar um vinho, me servi de uísque bem aguado.

May Parreira e Ferreira

Veja nosso vídeo no YouTube: https://youtu.be/DDoDCHpHnzw

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No mundo de Dom Quixote

Dom Quixote

Para entrar no mundo de Dom Quixote

O primeiro cuidado que você deve ter é com a escolha da edição. Não será difícil encontrar edições do “Quixote” em português, como a da Villa Rica, com tradução de Eugênio Amado (em dois volumes, 1.022 págs.), ou a da José Olympio, traduzida por Almir de Andrade e Milton Amado, mais razoáveis e acessíveis que a tradução mais popular dos viscondes portugueses, publicada pela primeira vez no Brasil nos anos 1970. É provável que você se surpreenda ao constatar que é capaz de ler Cervantes no original. Afinal, a língua espanhola dos tempos de Dom Quixote não fica tão distante assim da portuguesa.

A minha preferida para o clube de leitura é a da Penguin (Cia das Letras, 2012), com tradução de Hernani Ssó.

Com a obra em mãos, preste atenção especial ao Prólogo da primeira parte. Trata-se de algo que foge do habitual. Seria até possível dizer que se trata de um “antiprólogo”, pois em vez de o autor enaltecer sua obra, se põe a falar de sua dificuldade para redigir a apresentação. Os prólogos cervantinos, em geral, são instigantes e reveladores. De um modo muito particular, esse Prólogo é uma declaração de princípios de composição literária, de uma visão de Cervantes sobre a autoria, a obra e o público leitor. Mas não se preocupe caso você tenha se entretido com a narrativa contada no Prólogo e não tenha observado os tais princípios de composição literária. Siga adiante, pois em algum momento, você retornará ao Prólogo em busca do que o autor disse nessas páginas iniciais.

Cervantes é capaz de criar laços insuperáveis de simpatia com seu leitor.

Observe os curiosos títulos dos capítulos. E mais atenção aos narradores da história. Ao chegar ao capítulo 8, você encontrará a aventura mais difundida do “Quixote”: a dos moinhos de vento. Essa batalha inglória —um episódio divertido e patético— tem sido utilizada para expressar o despropósito do idealismo e a nobreza dos princípios do personagem.

É a primeira aventura de Quixote e Pança juntos.

Entre a primeira e a segunda parte da obra há diferenças consideráveis. Na primeira, o cavaleiro e seu fiel escudeiro (Sancho Pança), além de protagonizarem as aventuras, encontram-se com vários personagens que relatam suas experiências de vida. Para o leitor preocupado com o destino de Dom Quixote e Sancho, as histórias intercaladas podem, às vezes, apresentar menor interesse. No entanto, é importante ter em conta que, com essas histórias, Miguel de Cervantes está dialogando com vários gêneros literários que vigoravam na época.

O término da leitura do primeiro volume pode ser a oportunidade para uma pausa,

talvez para assistir ao filme “El Quijote” (direção de Manuel Gutiérrez Aragón e roteiro de Camilo José Cela), que conta com a interpretação impecável de Fernando Rey no papel de Dom Quixote e de Alfredo Landa como Sancho Pança. O filme (que pode ser encontrado no Youtube ou em http://www.rtve.es/television/el-quijote/), aborda apenas a primeira parte da obra. Pelo custo muito elevado e, sobretudo, pelo falecimento de Fernando Rey, a continuidade ficou prejudicada. Existem outras películas disponíveis online, inclusive animações.

Não pense que a primeira parte dá uma boa ideia do conjunto da obra.

Embora a segunda parte seja feita com o mesmo tecido da primeira, como diz o narrador, ela contém grandes diferenças. Coisas surpreendentes acontecem logo nos primeiros capítulos. Há a introdução de um novo personagem, Sansão Carrasco, com quem Dom Quixote e Sancho mantêm conversas simplesmente deliciosas. Já não aparecem tantas histórias intercaladas como na primeira parte e, embora os dois protagonistas se encontrem com vários personagens, a narração está muito mais amarrada em torno do cavaleiro e seu escudeiro. É na segunda parte que Dom Quixote se defronta com a Dulcinéia “encantada”, que Sancho passa a ser governador de uma “ilha” e que Dom Quixote recebe a notícia lamentável da publicação de um falso “Quixote”.

É muito provável que a leitura do “Quixote” exija pausas frequentes.

Após determinados episódios, será bom ruminar algumas ideias. Durante essa pausa, você possa deixar o universo da palavra e optar pelas notas musicais, aproveitando para escutar, entre outras peças, o “Don Quixote”, de Strauss, a “Comic Opera”, de Telemann e “El retablo de Maese Pedro”, de Manuel de Falla. Existe uma versão do “Quixote” na voz de Angela Maria (Spotify), deliciosa.

Na internet, há vários sites a visitar. Não deixe de conhecer o do Proyecto Cervantes 2001 (www.csdl.tamu.edu/cervantes).

Busque, explore, aventure-se.

Caso consiga ir até a Espanha, você poderá seguir o roteiro de Dom Quixote, passando pelos moinhos de vento, pela Cueva de Montesinos, pela Laguna de Ruidera, mas tome certos cuidados: você corre o grande risco de cair na armadilha quixotesca. Não se deixe iludir acreditando que de fato Dom Quixote viveu nos idos de 1600. Tome cuidado para não reproduzir em você a trajetória do mais engenhoso e incrível cavaleiro que foi o protagonista de uma história de andanças pela Espanha, sem suspeitar jamais que os famosos, valentes, fiéis, justos e honestos cavaleiros, protagonistas das muitas histórias que leu, eram apenas e exclusivamente seres de papel.

Este texto foi escrito por Maria Augusta da Costa Vieira (especial para a Folha 27/08/2002) e revisado/adaptado por May Parreira e Ferreira (Fevereiro 2020).

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Me alugo para sonhar

me alugo

Me alugo para sonhar
Gabriel García Márquez

“Me Alugo para Sonhar” é um livro indispensável para aqueles que desejam aprender a escrever para o cinema e a televisão, com privilégio de ter García Márquez como professor. Ele dirigiu a Oficina em Cuba, baseando-se no conto de mesmo nome. O livro traz comentários geniais de Doc Comparato e você acompanhará, passo a passo, todas as etapas da elaboração de um roteiro, desde o esboço das primeiras ideias, passando pela construção de cada personagem, a criação do argumento, chegando ao roteiro final, escrito por Ruy Guerra e Cláudio McDowell.

“Quando alguém se empenha em escrever um roteiro, não deve desanimar diante dos obstáculos. E preciso colocar a honra do roteirista na frente do destino do roteirista. É preciso tentar escrever roteiros ótimos, mesmo que depois o diretor faça barbaridades com ele. E repito: para fazer um bom roteiro, o único remédio é apagar, riscar muitas linhas, e jogar muitos papéis fora. Isso é o que a gente chama de sentido crítico, aquilo que Hemingway chamava de shit-detector. O diretor com quem melhor trabalho é Ruy Guerra, porque não se sente constrangido comigo: me diz com toda franqueza o que tem a dizer, e ponto final. E eu também sou assim com Ruy. Tenho um enorme respeito por ele como diretor e criador, mas isso não me impede de falar francamente. O que não presta, não presta; e é preciso jogar fora, seja de quem for. O assunto se resume nisso: é preciso evitar que chegue à tela”. (Como contar um conto, G. G. Marquez, 1997)

O CONTO

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro.

Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro.

Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.

Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente.

Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.

Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida.

Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:

— Eu me alugo para sonhar.

Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: “Sonho”. Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia.

Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara e duas crianças de onze e nove anos.

Todos eram religiosos, e portanto, propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.

Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem.

Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos. Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias.

Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.

— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.

Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.

Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa.

Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.

Não conheci ninguém mais parecido à ideia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar.

Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração.

De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:

— Tem alguém atrás de mim que não para de me olhar.

Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.

Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

— Só a poesia é clarividente — disse.

Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas.

Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela. Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. “Você continua o atrevido de sempre”, disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.

— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.

Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.

— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.

Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.

— Isso é coisa de Borges — comentei.

Ele me olhou desencantado.

— Está escrito?

— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.

Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.

— Sonhei com o poeta — nos disse.

Assombrado, pedi que me contasse o sonho.

— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.

— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.

Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. “O senhor não imagina como ela era extraordinária”, me disse. “O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela”.

E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.

— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?

— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.

Março de 1980