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CANSAÇO OUTONAL

May Parreira
O outono chega num pulo, num salto, da noite pro dia. Que começo mais insosso para uma crônica. Semana passada, a água da piscina era boa para nadar. No último sábado, já não deu. Fria demais e o Sol sem força para aquecê-la. Um dia, vou dormir bem, animada com o próximo dia. E quando o próximo chega, ai que preguiça. Levantar, fazer café, tomar o café, pão ou iogurte com aveia? Laranja ou mamão? Voltar pra cama ou lavar a roupa? Ai, que preguiça.
As tarefas são muitas. As leituras são muitas. Os barulhos são muitos, na cidade ou na roça. Os silêncios são muitos. Existe um cansaço. O corpo se recusa. O corpo envelhece.
Percebo os emaranhados do colo ao fazer as lives. Puxa, por dentro não me vejo assim, papel crepe. Tinha razão mamãe. Depois dos sessenta, acabou o uso de camisetas. Lenços no pescoço, indispensáveis.
Hoje, o cansaço. Dor nos olhos, nos maxilares, o ar seco incomoda. O corpo se manifesta. O friozinho ajuda. Chegou o outono, ontem à noite.
Talvez canse o isolamento. Sou gregária, preciso do contato. Falo com a família, com amigos. Benditos aplicativos, nos aproximam, preenchem uma lacuna de algo que não existia. O fado diz, estando em tua presença, quanta saudade de ti. Não conhecia essa saudade. Nenhum de nós conhecia. Estamos todos nela, pois. Ou não estamos nenhuns.
Cortei, hoje, os pés de framboesas. Quero frutas novas para as geleias natalinas. A fruta é delicada, suculenta, saborosa. A moita é espinhosa, difícil, provoca dor e inflamações. Conheço pessoas assim. Você é atraído pela beleza da fruta e enfia a mão para pegá-la. Na volta, os espinhos o impedem de tirar a mão. Quanto mais se debate para sair, mais espinhos se agarram a você. Existe um jeito para retirar as framboesas. Existe um jeito para escrever crônicas. A gente sofre no começo, os arranhões são vários, alguns rasgam a pele, mesmo.
Nada que uma panaceia não resolva.
Para esse cansaço nenhuma panaceia ou panegírico. Nenhum pandeiraço ou panelaço. O outono, hoje, me pegou de manhã e não soube o que fazer comigo. As friagens vieram todas, e eu quase não saí
do quarto. São quase onze da noite e eu tenho dor nas sobrancelhas. Hoje, a tarde foi esplendorosa.
Quem sabe o amanhã seja igualmente resplandecente. Quem sabe até, amanhã meu corpo volte pra mim. Ligeiro e confortável.
Deixo o texto de lado e durmo.
A manhã chega devagar. Nuvens, o verde do jardim aparado. As fotos do pôr do sol em todos os lugares de São Paulo ontem. Aqui na roça, o espetáculo de cores acontece com frequência.
As pessoas confinadas resolveram se voltar à natureza. E a descobriram em sua exuberância. A natureza mudou? Não. Mudaram os olhares, as sensações, os registros. As selfies mudaram de foco. E eu amanheci sem dor.

@oficio_das_palavras