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EU TENHO MÁTRIA

Mãe e filha

Mãe e filha

Estamos fazendo brincadeiras nos zaps trocados entre amigos e familiares. Hahaha, eu digo, tu dizes, eles dizem. Hoje, embaixo da notícia principal, vinha na tarja vermelha “os cartórios estimam os óbitos em 173% a mais”. Em vez de sete mil, estaremos próximos dos vinte mil.

Vinte mil avós, avôs, irmãos, tios, pais, pais, filhos, netos, amigos. Marias e Clarices chorando nas tumbas de caixões, cheios de carne conhecida, que não precisavam estar lá. Nossa, você não pode pensar assim. Sim, posso pensar, sim. Pensar é livre pensar. O pensamento não é aprisionante, não é aprisionado se solto para livre pensar. No meu pensamento, acho que a morte de minha mãe, aos oitenta e sete anos, por uma leucemia mieloide aguda, foi antecipada. Gostaria que ela vivesse mais dez, quinze anos. Sinto a sua falta. Sou órfã, desde então. A morte do pai me deu força para a vida. Me deu coragem e literatura para todo o
sempre. Continuar lendo EU TENHO MÁTRIA

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UMA BÁ PARA A VIDA

Darvíria era o nome de batismo. Dalva o nome artístico. Com o tempo, virou Zaza, Zé, Bá. Hoje, ela faria 95 anos. Era mais velha que mamãe. Chegou antes de eu nascer. Cuidou de mim, depois da June, aconselhou e socorreu todas as tias, criou minhas filhas, meus sobrinhos, e viu três de meus netos nascerem. Foi a melhor amiga de mamãe. Cuidou de papai nos momentos tão difíceis. Era brava, invocada, respondona – abriu a porta do carro no cruzamento da Bandeirantes, durante uma briga comigo, eu desço já. Corajosa e muito inteligente. Nasceu na roça. A Escola rural tinha uma sala, e as turmas eram divididas por fileiras. Ela se sobressaía. O trabalho na lavoura para ajudar Dona Justa, sua mãe, a tirou do futuro como professora, o sonho. Porém foi nossa professora. Minha irmã e eu dormíamos ao som de suas histórias, decoradas e contadas todas as vezes da mesma maneira, com a pontuação exata do livro. A cozinha ficava bem embaixo de nosso quarto. E quando estávamos prontas batíamos, com dos nós dos dedos, no assoalho para avisá-la. E ela chegava, nosso livro falante. Continuar lendo UMA BÁ PARA A VIDA

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DETALHES ÍNFIMOS

De tudo que acontece podemos tirar um aprendizado, das menores coisas, dos ínfimos detalhes. É só saber olhar. E acho que o que tem nos desanimado muito é a falta de um Norte, um exemplo maior, do qual nos orgulhar, nos moldar. A cada dia, o acordar sempre é uma interrogação. Qual a notícia do dia? Já passamos quinhentas mortes por dia? Ultrapassaremos a Itália? Além das prosaicas, qual polêmica presidencial ganhará os noticiários hoje? Abro o twitter e em dez minutos sei dos desastres familiares da primeira família, agora com um zeroquatro disparando asneiras genéticas. Meujesuscristinho, onde isso vai parar? Voltando aos aprendizados. Dia sim dia não, corro com o Viggo. Fazemos treino para dez quilômetros. O app vai dizendo, mantenha o ritmo, corra mais forte, bom trabalho, sorria se puder. O cão, nem se importa. Ele vai no trotinho leve, não daria pra suar a camisa, como costumamos dizer. Corremos em estrada de terra. Continuar lendo DETALHES ÍNFIMOS

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SABE O QUE É EMPATIA?

Hoje, 29 de abril de 20, precisei realinhar as expectativas social, familiar e financeira. Não as minhas expectativas, porque desde o início da pandemia até o presente pandemônio (desculpe-me o clichê), sei o que viria. Mas de quem de certo modo está ligado a mim. Muitas pessoas estavam felizes de sair do isolamento social em onze de maio. Sério? Estamos mais de quinhentos anos atrasados em relação ao mundo europeu, mais de dois mil anos atrasados ao mundo asiático, e alguns meses à pandemia da covid19. É só ter um pouquinho de paciência pra fazer a busca das tabelas de contaminação e mortes pelo mundo. Por que não aprender com a experiência alheia? Porque dá trabalho. Dá trabalho descascar um abacaxi, é mais fácil comer banana. Dá trabalho educar, é mais fácil colocar um smartqualquercoisa nas Continuar lendo SABE O QUE É EMPATIA?

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O INFERNO SÃO OS OUTROS

Entrar no Facebook e ver pessoas, a quem quero muito bem, postarem e repostarem comentários e reportagens de sites duvidosos, por duvidarem da mídia tradicional, é triste. Em qualquer situação é triste, em quarentena compulsória é ainda mais triste.

Já escrevi sobre o mecanismo de NEGAÇÃO. Caso não se lembre, a negação refere-se aos fatos da realidade que são rejeitados e substituídos por uma fantasia ou ação.
Explico. Há muitos anos, muitos, tive uma amiga que ligou pra me dizer que sonhou com um incêndio. Ela via o fogo e ria, ria, ria. Meses depois me ligou de novo, pra perguntar se eu sabia da traição do marido. Sim, eu sabia. E disse que ela também sabia, estava evidente. E que ela mesma havia dito que gostava de ver o circo pegar fogo. Continuar lendo O INFERNO SÃO OS OUTROS

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CANSAÇO OUTONAL

apenas um por do sol amarelado

O outono chega num pulo, num salto, da noite pro dia. Que começo mais insosso para uma crônica. Semana passada, a água da piscina era boa para nadar. No último sábado, já não deu. Fria demais e o Sol sem força para aquecê-la. Um dia, vou dormir bem, animada com o próximo dia. E quando o próximo chega, ai que preguiça. Levantar, fazer café, tomar o café, pão ou iogurte com aveia? Laranja ou mamão? Voltar pra cama ou lavar a roupa? Ai, que preguiça.
As tarefas são muitas. As leituras são muitas. Os barulhos são muitos, na cidade ou na roça. Os silêncios são muitos. Existe um cansaço. O corpo se recusa. O corpo envelhece.

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A MENINA IRADA

desenho de uma menina com fumaça pelos ouvidos, com raixa, bufando

A menina era tão pequena, tão bonitinha, tão graciosa, mas tão cheia de cólera.

Não havia o que escapasse. Ela tinha raiva. Muita raiva.

Se a mãe fizesse um doce, ela reclamava, estava muito, doce xingava a mãe, jogava o doce no chão. O irmão trazia uma flor: para alegrar o seu dia. Ela despejava o jarro na cabeça do irmão.

Seu idiota, não sabe que tenho alergia?

Um dia era o colega de classe, no outro a vizinha da frente. Sempre havia alguém que ela achava que a perseguia, queria lhe fazer mal. A cada dia, alguém era a bola da vez, recebia todo o seu ódio, seus palavrões. E ela não ficava só nas palavras, não. Pegava o celular e enchia as redes sociais com o mais atordoante linguajar. Ninguém mais sabia o que fazer com aquela menina colérica.

Tentar não custa, não é? O avô, muito paciente, propôs um jogo para a pequena:

Cada vez que você pensar em bater em alguém, ou vontade de xingar alguém, vai fazer uma bola no seu corpo, com essas canetas aqui.

A menina topou. Até que foi divertido, porque ela ficou com as canetas na mão o dia inteiro.

Na hora do jantar, o avô entrou na sala e começou a dar risada. A menina quis saber o que era tão engraçado.

Venha aqui, neta, olhe-se no espelho.

Quando ela se viu, ficou sem saber o que falar. Mas, mas, eu estou toda colorida.

Pois é, pense no que acontece com você, esse sentimento de raiva mancha você por dentro.

Difícil o avô explicar que a ira é um sentimento de quem tem muitas expectativas e acaba por ser frustrada. Ela ainda é pequena, vai ter que aprender, um dia.

Difícil o avô explicar para a neta o tamanho do sofrimento dela.

Por enquanto, ele fala para ela ir tomar um banho. Vão ter que conversar bastante sobre as
cores da alma.

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