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DETALHES ÍNFIMOS

cachorro pastor alemão na paisagem

De tudo que acontece podemos tirar um aprendizado, das menores coisas, dos ínfimos detalhes.

É só saber olhar. E acho que o que tem nos desanimado muito é a falta de um Norte, um exemplo maior, do qual nos orgulhar, nos moldar. A cada dia, o acordar sempre é uma interrogação. Qual a notícia do dia? Já passamos quinhentas mortes por dia? Ultrapassaremos a Itália? Além das prosaicas, qual polêmica presidencial ganhará os noticiários hoje?

Abro o twitter e em dez minutos sei dos desastres familiares da primeira família, agora com um zeroquatro disparando asneiras genéticas.
“Meujesuscristinho”, onde isso vai parar? Voltando aos aprendizados. Dia sim dia não, corro com o Viggo. Fazemos treino para dez quilômetros. O app vai dizendo, mantenha o ritmo, corra mais forte, bom trabalho, sorria se puder.
O cão, nem se importa. Ele vai no trotinho leve, não daria pra suar a camisa, como costumamos dizer. Corremos em estrada de terra. Os animais encontrados são outros cães, mas podem ser cavalos, vacas, lagartos (alguns bem grandes), capivaras e humanos.

Os humanos quando veem o pastor, ou param ou atravessam a estrada. Ele é tranquilo, nunca atacou ninguém nem nenhuns. Mas, e aqui pego o gancho do início, alguns cães quando ao lado de seus possíveis donos, se enchem de coragem, arregaçam os dentes e vêm pra cima. Meu dócil cão, se quisesse arrebentar a trela, não teria problema em me derrubar ou me arrastar com ele (a guia vai sempre presa à pochete de corrida). Não. Ele ouve o meu “não” e aguarda. Aí, eu paro, emposto a voz e grito, pra casa. E o vira-lata, vira pro outro lado, enfia o rabo entre as pernas e se vai.

Aprendi que se você fala com autoridade, o bicho respeita. Fim de treino, nova passada pelas notícias e vejo o presidente desdizer o que disse mais cedo. Joga pra torcida. Se pegar pegou, se não, recua. Feito os cachorros da estrada. E nossa população estradeira, ribeirinha, periférica fica confusa. Sentimento partido. Ficar ou correr? Entrar ou sair? Sem saber que o que vem com dentes arreganhados, cheio de machezas, é um dos tantos vira-latas acovardados.

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EU TENHO MÁTRIA

may e dona aurea, abraçadas, may dando beijo

may e dona aurea, abraçadas, may dando beijo

Estamos fazendo brincadeiras nos zaps trocados entre amigos e familiares. Hahaha, eu digo, tu dizes, eles dizem. Hoje, embaixo da notícia principal, vinha na tarja vermelha “os cartórios estimam os óbitos em 173% a mais”. Em vez de sete mil, estaremos próximos dos vinte mil.

Vinte mil avós, avôs, irmãos, tios, pais, pais, filhos, netos, amigos. Marias e Clarices chorando nas tumbas de caixões, cheios de carne conhecida, que não precisavam estar lá. Nossa, você não pode pensar assim. Sim, posso pensar, sim. Pensar é livre pensar. O pensamento não é aprisionante, não é aprisionado se solto para livre pensar. No meu pensamento, acho que a morte de minha mãe, aos oitenta e sete anos, por uma leucemia mieloide aguda, foi antecipada. Gostaria que ela vivesse mais dez, quinze anos. Sinto a sua falta. Sou órfã, desde então. A morte do pai me deu força para a vida. Me deu coragem e literatura para todo o sempre. A morte da mãe, me deixou órfã. Sabe o que é isso? Claro que sabe. Já perdeu alguém. Eu, a que cuida, a que resolve, a que acalma e tranquiliza, não tenho mais alguém que me cuide (desculpem-me filhas e marido e família, mas é diferente). Sabe aquela coisa de dizer, mãe, hoje estou triste. Ou, Mama, sabe o que eu fiz? Nunca mais. Tá certo, a quarentena deixa a gente emocional, mole mesmo. Mas o que me deixa mais triste, é que com essa crise na saúde (que não é de hoje no país), nós tenhamos de lidar com uma crise política. A falta de rumo político é o que me deixa deprimida. Tem quem fique discutindo a volta ao poder do comunismo. Citam ato institucional como se fosse tabuada do dois. Pessoas na frente do planalto agredindo profissionais da saúde. Pessoas chutando jornalistas. Que mundo é este?

Este é o mundo que você quer para o seu filho? Pense longe. Daqui a vinte anos. Como vai querer ser lembrado? Sua filha vai sentir sua falta, quando morrer aos 70, por descuido? Seus netos vão chorar, por você não ter guardado o isolamento? Consciência é pouco. Eu tenho mátria. Meu pai levo comigo. Esta pátria não me leva.