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NÃO CONSIGO RESPIRAR

Sim, é revoltante, é mais que isso, mas não tenho a palavra adequada, o vídeo do homem deitado de bruços, imobilizado e dizendo, não consigo respirar. Isso aconteceu nos EUA, que sempre desempenharam o papel tradicional de defensor dos direitos humanos. No Brasil, o estudante João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morreu em 18 de maio, durante uma operação conjunta das polícias Federal e Civil, em São Gonçalo, RJ. Qual é a palavra que você usa para isso? Existem em nosso país dezenas de Joãos, Pedros, Josés, Quinzinhos, que são mortos todos os dias. Qual a palavra para isso? Estamos enfrentando uma pandemia sem precedentes. Hoje, no Brasil, ultrapassamos o número subestimado de 1.200 mortes. É razoável para você? Em fevereiro ou início de março, quando escutávamos nas notícias, quinhentas mortes por dia na Itália ou na Espanha, nos condoíamos. Alguns políticos se desculparam publicamente pela não tomada de atitude imediata. Pobres europeus, como eram sofridas aquelas mortes. As cantorias nas varandas, os concertos. Tinham um aspecto de bela morte, até melancólicas. Aqui, no Brasil, nossas varandas bateram panelas. Nenhum pronunciamento oficial pelos que se iam.
Foram vários artistas de quem poderemos continuar a ouvir as vozes. E milhares de silenciosos, de quem nunca ouviremos falar os nomes. São #inumeráveis. Não me importa em quem você votou. Me importa qual é sua atitude agora. Você percebe o perigo que essa ‘retomada gradual’ nos custará? São mil e duzentas pessoas que morrem por dia. Não chegamos ao pico da pandemia, ainda. E parece que o que importa é se o presidente andou a cavalo, se o filho dele publicou uma notícia falsa, se o ministro está envolvido em ocultamentos. O fato é que ele não está nem aí para o que não conhece. A pandemia é desconhecida até por especialistas que se dedicam a decifrá-la. Disso o presidente quer distância. Ele conhece o atrito, o conflito. É a sua praia e nisso ele nada
de braçadas e todos os clichês do mundo. Pra que vai se preocupar com coisas difíceis como uma pandemia que mata mais do que as últimas guerras da Coreia e Vietnã?
Se você chegou até aqui, saiba que a dor do outro é a minha dor. Se você não a sente, não deveria estar aqui, na leitura de alguém que não pode respirar. Não quero que manifestações pró ou contra o presidente se tornem necessárias. Não quero que se tornem banais. Pessoas vão morrer, não porque se confrontem nas manifestações, mas, sim, porque se infectarão e não haverá hospitais suficientes. Sentiremos o impacto em uma ou duas semanas. Se você consegue respirar, parabéns. Eu não consigo.