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NO REINO DAS RÃS

May Parreira
Quando, no Reino da Terraplana, as rãs ocupavam a área do pântano, começou uma desordem entre elas. Nenhumas se respeitavam, as brigas eram medonhas, agressões à mancheia.
E começaram os pedidos a Júpiter, queremos um rei, queremos um rei. Precisamos de alguém a quem possamos obedecer, alguém que imponha leis, que nos diga o certo e o errado.
Queremos um rei.
Foi tanto coaxar, que Júpiter num momento de excessivo cansaço com toda a balbúrdia, atirou na lagoa um pedaço de pau, querem um rei? Pois, aqui vai um.
O pau fez barulho ao tocar a água, e as ondas assustaram o ranário. Foi um espalhafato; as fêmeas saltitantes, os machos no pula que pula, como fazem sempre as rãs, em tempos de crise. E todos se esconderam entre raízes de juncos e taboas. Um susto pra valer.
Silêncio.
Um lamaçal silencioso foi o que se ouviu por longo tempo.
Esopo nos diz que os
instintos da fera, são muitas vezes, provocados pela presa.
Uma dessas presas assustadas, um macho destemido, colocou a cabeça pra fora e viu que o rei era grande, porém pacato. E resolveu pular. O rei nem se mexeu. Outra rã seguiu a primeira, uma terceira se juntou a elas. E assim, elas saíram do isolamento e começaram a se divertir nas folhas d’água. Rodearam o rei, encarapitaram-se sobre ele, que continuava quieto, como ficam normalmente os pedaços de pau.
Daí a se esgoelarem não demorou nada. Ora Júpiter, leve esse rei embora, ele não faz nada, não nos pune, não nos intimida. Queremos um novo rei.
Júpiter ordena a uma cegonha, que por ali passava, que tomasse conta da lagoa. É claro, que reinarei com disposição, afinal vou tirar o papo da miséria.
A cegonha, única na lagoa, uma perna aqui, uma rã; outra perna ali, duas rãs. E engole o quanto pode. Para desespero da população reclamante.
Ó Júpiter, esse rei é desalmado, ele nos devora. É cruel, desalmado.
E o maior dos deuses responde sem pressa, agora aguentem. O primeiro rei não estava bom? Era um verdadeiro presente. Reclamaram tanto, lhes dei outro, vivo até demais.
Pois não reclamem. O próximo pode ser ainda pior.