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O CORVO E A ÁGUIA

No tempo em que os bichos falavam e os homens não saíam muito de seus quintais, por medo de se afastarem muito e caírem no fim da Terra Plana (sim, o final era horrível), lá no alto dos rochedos, uma águia real faz ninho.
A primavera traz filhotes e mais bicos esfaimados.
Logo cedinho, a águia se levanta, estufa o peito, bate as imensas asas e se atira no abismo. Durante o voo celeste avista um rebanho, e escolhe o alvo.
A descida é mais que certa, é precisa.
Do mergulho, ela sai com uma ovelha entre as garras fortes, musculosas.
Seus filhotes terão alimento até poderem voar sozinhos.
O corvo, empoleirado no alto de um carvalho, ficou tomado de inveja pela elegância, porte e força da águia.
Se ela pode fazer isso, eu também posso. Aliás, eu posso fazer melhor.
E vai o corvo, sobe em alto voo e desce na vertical. Tudo muito bem traçado em sua cabeça.
O ataque poderia (só poderia) dar certo, não fosse seu bico pequeno e garras tão frágeis.
O corvo ficou dolorido, trincou um pedaço do bico e ficou preso nas grossas malhas da ovelha.
O pastor pegou-o e desembaraçou-o dos nós:
Tentando roubar o meu rebanho, empolado? E zás, cortou suas asas para que não pudesse
mais voar e guardou-o, humilhado, no cesto.
À tardinha, ao chegar em casa, presenteia o filho:
Tome, vá brincar.
Que bicho é esse, sem bico e sem asas? Pergunta o menino.
É um corvo, sem dúvida, mas se você perguntar é capaz de dizer que é uma águia, pobre dele.

Fim
Esopo nos adverte para não sermos quem não somos.
Ao tentar ser mais poderoso do que é, você dever se preparar para ser motivo de riso; e não se esqueça que o sucesso alheio ainda é o maior pesadelo do invejoso (palavras de Esopo)
May Parreira