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Isto não é uma resenha

Isto não é uma resenha
Isto não é uma resenha.

Francisco Buarque de Hollanda, carioca de 76 anos, é um dos mais populares compositores (inter)nacionais. Além das músicas, escreveu as peças Roda Viva (1968), Calabar (com Ruy Guerra, 1973), Gota D’água (com Paulo Pontes, 1975), Ópera do Malandro (1979); os livros desde Estorvo (1991), Budapeste (2003), até este Essa gente (2019).

Na orelha do livro, Sérgio Rodrigues nos diz que: numa primeira leitura, é uma comédia de costumes divertida e cruel. E no final, viramos o livro pelo avesso para transformar o fundo em forma e desviar os olhos da história para a História.

Sim Essa gente, somos nós, o povo brasileiro. O protagonista é um escritor às voltas com um novo e inacabado romance (clichê), que tem duas ex-mulheres (clichê), um filho adolescente com quem não se dá (clichê), que frequenta prostitutas (clichê), que bebe…

A forma dos capítulos, curtos e dispostos como um diário, é interessante (não encontro palavra melhor). Narradores diversos, às vezes um telefonema de um lado só do fio, uma carta, uma notícia de jornal; e às vezes um narrador em terceira pessoa.

Há um elemento caleidoscópico que evoca o que o próprio Chico Buarque chamou se “onirismo desperto”, também presente, de formas diferentes, em romances como Estorvo e Leite derramado (https://revistaescuta.wordpress.com/). Nem de fatos, nem sonhos, o que há é uma síntese de tudo isso num plano contínuo, uma espécie de fluxo de consciência ordenada (@companhiadasletras).

Aí, você começa a ler.

Na página 6, esta frase: “Desço à rua sempre que as letras endurecem no papel, comprimidas entre si como as pequenas pedras em preto e branco do calçamento que piso”, nos remete ao próprio Chico. E vez ou outra ele aparece. Mas…

O que vem depois do mas é sempre algo do qual já fomos advertidos.

Não tive a surpresa que esperava.

A linguagem é frouxa, antiquada, sem frescor algum. Bem, muitas pessoas deixaram comentários elogiadíssimos. Não vou conseguir.

O livro é bom, um final que faz você voltar de novo e de novo e de novo. Mas nada daquele impacto que foi Budapeste.

ESSA GENTE (nós o povo) se vê retratada. Sem pieguice, sem politização, sem frescura nenhuma. Por baixo, as águas do Rio falam da gente que é morta por policiais, que é chutada pelo ricaço, que sobe ou desce o morro no mototáxi. Um retrato bem feito, com técnica.

Pra mim, faltou a espiral sempre tão inspirada (perdão pelo trocadilho). Não fui enlevada.

Acabei o livro e, ao invés de tomar um vinho, me servi de uísque bem aguado.

May Parreira e Ferreira

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