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Isto não é uma resenha 2

Isto não é uma resenha 2

Você já ouviu falar em soft power? Se sim, vou repetir. Se não, eu conto aqui o que é e para serve. Em geral, os cientistas políticos consideram duas moedas de influência no mundo: o hard power e o soft power. A primeira, todo mundo conhece, é antiga e se dá pelo exercício do poder econômico e bélico. É pelo uso da força, da coerção, do mercado, um tipo de dominação comum em toda a história do mundo.

Já o soft power…

Há quase três década, anos 1990, o cientista político americano e ex-funcionário do governo Clinton, Joseph Nye apresentou uma ideia nas páginas de Política Externa. Ele chamou de soft power, um conceito que pegou fogo e passou a definir a era pós-Guerra Fria.

Nye argumentou que os Estados Unidos, depois do final da Segunda Guerra Mundial, tinham uma fonte única de poder a ser exercida. Seu poder não coercitivo – para consolidar a posição de liderança em o mundo.

O Hard power é fácil de medir, é claro. Podemos contar o número de mísseis, tanques e tropas. Mas qual era o conteúdo da influência sutil, do poder brando do convencimento, do way of life? Nye colocou-o em três categorias: cultural, ideológico e institucional.

Não vou me estender nos conceitos.

Sabemos que um dia o mundo inteiro desejou uma caça jeans como a de James Dean, todo mundo chorou ao ver Scarlet O´Hara dizer que jamais sentiria fome, em O Vento Levou. Sim, Hollywood é a expressão máxima de soft power.

Quando “Parasita” foi coroado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, um projeto de 25 anos foi premiado junto. Segundo dados do Korean http://film.org, a audiência do longa foi de 10 milhões de telespectadores, cerca de 20% de toda a população.

Um em cada 5 coreanos assistiu a “Parasita”….

Em 1994, o “Jurassic Park” colocou a indústria sul-coreana de audiovisual em alerta. Nos três meses em que ficou em cartaz, a obra de Steven Spielberg dominou as salas de exibição. Ato contínuo, o presidente Kim Young-Sam resolveu lançar as bases das primeiras medidas de financiamento do cinema coreano.

A Lei do Audiovisual, de 1995, tinha por objetivo criar um fundo de investimento, além de oferecer incentivos fiscais ao setor. No mesmo ano, foi criado ainda o Departamento de Indústria da Cultura. E daí a gente já sabe que investimentos governamentais nas produções audiovisuais, que fidelizam público local, e preparam os filmes para o mercado internacional, e a capacidade dos cineastas em elaborar roteiros de gênero misto e flertar com o cinema de autor.

Os personagens sempre são redondos, não há o só bonzinho ou só do mal.

Impossível também não destacar a participação de Bong Joon-ho na indústria coreana. Seu longa “Memórias de um Assassino”, de 2003, deixa evidente que o thriller policial seria um dos gêneros fortes da onda coreana.

As novelas da Turquia, disponíveis no Netflix, trazem muito da cultura turca, suas comidas, seus hábitos e divisões culturais. Kurt Seyit é pura aula de história da Rússia e Turquia durante e depois da Primeira Grande Guerra.

Eu adoro conhecer outras culturas. Os livros são uma ótima forma de entrar no mundo mágico das terras distantes e, agora, os filmes também. Ter acesso ao modo de fazer papel, ou o hábito de historiadores registrarem todo o ocorrido nas cortes imperiais do século XV, ou as delícias da culinária bem-feita, é ideal para quem quer sossego, vinho e filme.

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Isto não é uma resenha

Isto não é uma resenha
Isto não é uma resenha.

Francisco Buarque de Hollanda, carioca de 76 anos, é um dos mais populares compositores (inter)nacionais. Além das músicas, escreveu as peças Roda Viva (1968), Calabar (com Ruy Guerra, 1973), Gota D’água (com Paulo Pontes, 1975), Ópera do Malandro (1979); os livros desde Estorvo (1991), Budapeste (2003), até este Essa gente (2019).

Na orelha do livro, Sérgio Rodrigues nos diz que: numa primeira leitura, é uma comédia de costumes divertida e cruel. E no final, viramos o livro pelo avesso para transformar o fundo em forma e desviar os olhos da história para a História.

Sim Essa gente, somos nós, o povo brasileiro. O protagonista é um escritor às voltas com um novo e inacabado romance (clichê), que tem duas ex-mulheres (clichê), um filho adolescente com quem não se dá (clichê), que frequenta prostitutas (clichê), que bebe…

A forma dos capítulos, curtos e dispostos como um diário, é interessante (não encontro palavra melhor). Narradores diversos, às vezes um telefonema de um lado só do fio, uma carta, uma notícia de jornal; e às vezes um narrador em terceira pessoa.

Há um elemento caleidoscópico que evoca o que o próprio Chico Buarque chamou se “onirismo desperto”, também presente, de formas diferentes, em romances como Estorvo e Leite derramado (https://revistaescuta.wordpress.com/). Nem de fatos, nem sonhos, o que há é uma síntese de tudo isso num plano contínuo, uma espécie de fluxo de consciência ordenada (@companhiadasletras).

Aí, você começa a ler.

Na página 6, esta frase: “Desço à rua sempre que as letras endurecem no papel, comprimidas entre si como as pequenas pedras em preto e branco do calçamento que piso”, nos remete ao próprio Chico. E vez ou outra ele aparece. Mas…

O que vem depois do mas é sempre algo do qual já fomos advertidos.

Não tive a surpresa que esperava.

A linguagem é frouxa, antiquada, sem frescor algum. Bem, muitas pessoas deixaram comentários elogiadíssimos. Não vou conseguir.

O livro é bom, um final que faz você voltar de novo e de novo e de novo. Mas nada daquele impacto que foi Budapeste.

ESSA GENTE (nós o povo) se vê retratada. Sem pieguice, sem politização, sem frescura nenhuma. Por baixo, as águas do Rio falam da gente que é morta por policiais, que é chutada pelo ricaço, que sobe ou desce o morro no mototáxi. Um retrato bem feito, com técnica.

Pra mim, faltou a espiral sempre tão inspirada (perdão pelo trocadilho). Não fui enlevada.

Acabei o livro e, ao invés de tomar um vinho, me servi de uísque bem aguado.

May Parreira e Ferreira

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